quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

3.1 APRENDENDO A PENSAR COM A PRÓPRIA CABEÇA


     Em linhas gerais poderíamos resumir a missão do educador no processo


ensino-aprendizagem no ato de orientar o pensamento dos alunos dentro das


determinadas disciplinas propostas. Por que então a Escola não se focaliza no ensino

do ‘pensar em si’? Talvez não seja possível ensinar a pensar através de um curso

rápido ou de uma disciplina curricular específica, mas certamente é possível que os

alunos aprendam a pensar com a própria cabeça a partir do momento em que são

envolvidos com a investigação conceitual dentro da sala de aula. Isso implica dizer

que se deseja atingir seus objetivos, é muito mais interessante para o educador

buscar ensinar a pensar, do que simplesmente repassar para seus alunos aquilo que

aprendeu de seus mestres.

     A fim de se ter crianças que pensem melhor, a Escola deve ensiná-las a

raciocinar. Raciocínio este que Lipman conceitua da seguinte maneira:

                                                “O raciocínio é aquele aspecto do pensamento que pode ser formulado

                                                  discursivamente, submetido a critérios de avaliação (pode haver raciocínio

                                                 válido e não válido) e ensinado. Ele envolve, por exemplo, a utilização de

                                                 inferências bem fundamentadas, apresentação de razões convincentes, a

                                                 revelação de suposições latentes, a determinação de classificações e

                                                definições defensáveis e a organização de explicações, descrições e

                                                argumentos coerentes. Em geral, ele produz uma sensibilidade em relação

                                                aos aspectos lógicos do discurso que não são desenvolvidos em nosso

                                                sistema atual educativo” (LIPMAN, 1995, p. 46-47)

     Ainda muito pequena, quando possui suas vivências limitadas ao ambiente

familiar, a criança aprende a falar suas primeiras palavras. Em pouco tempo ela

percebe que não basta apenas pronunciar sons como “papai” ou “mamãe” para

impor suas vontades socialmente. A criança percebe que está participando de um

grande jogo de linguagem29, onde é necessário seguir várias regras para se ter

sucesso. Com isso, o até então bebê desenvolve seu raciocínio e começa a narrar,

explicar, julgar, desenvolver a lógica e a sintaxe entre as palavras que expele de sua

boca.

     Para Lipman as habilidades de desenvolver lógica e sintaxe para sua

linguagem são as bases da racionalidade humana. (LIPMAN, 1995, p. 47) Caso a

criança apresente alguma deficiência no desenvolvimento destas habilidades,

provavelmente apresentará alguma dificuldade de desenvolver as novas habilidades

que a vida escolar pode exigir.30 Da mesma forma, pode ser que a dificuldade de

uma turma em aprender e resolver problemas de álgebra não esteja diretamente

ligada as questões da matemática em si, mas sim à uma deficiência na

aprendizagem da lógica formal que as letras e os números representam. 31

Sob esta perspectiva, não podemos determinar até que ponto a vivência

escolar, tal como foi relatada no primeiro capítulo, estimula e até que ponto retarda o

desenvolvimento da habilidade de raciocinar dos alunos. Por este motivo se deve

estar ciente que a maioria dos jovens que são formados no Ensino Médio possui

basicamente a mesma, ou até um pouco menos, habilidade de raciocínio que

possuíam já na metade do Ensino Fundamental. Por que então “obrigar” os

adolescentes há ficarem tanto tempo a mais frequentando a Escola? Julgo que esta

resposta ainda não deva ser respondida. Primeiramente porque qualquer resposta

do tipo “para aprenderem uma série de conteúdos vitais para a vida em sociedade” é

inválida. Ninguém necessita saber o que é um adjunto adnominal ou saber

exatamente a aplicação da formula de Baskara (x=(-b± (b²-4ac)÷2a) para viver bem

em qualquer lugar do mundo. Além do mais, mesmo em um país subdesenvolvido e

desigual como o Brasil, a maioria dos jovens possuem acesso a algum meio de

comunicação que consegue transmitir uma quantidade de informações muito maior e

mais interessante que a Escola. Cada novo avanço de interatividade e

compartilhamento de informações por meio digital que a internet proporciona é um

novo contra argumento irrefutável para aqueles que ainda acreditam que a Escola

deve se concentrar em despejar conteúdos objetivos para os alunos. Julgo que se

deve acrescentar ao pressuposto universal de que as crianças vão à Escola para

aprender o fato que devem ir à Escola para aprender a pensar com as próprias

cabeças, para só então depois podermos responder o porquê manter as crianças

tanto tempo na Escola. Caso contrário, a Escola se apresentará como uma

instituição ultrapassada e arcaica, um verdadeiro moedor de crianças do clipe da música

Another Brick in the Wall
 

 Este texto faz parte do trabalho chamado “Crítica a Escola” escrito por mim, Fabio Goulart. Para fazer o Download do trabalho Completo CLIQUE AQUI. Todos os dias será postado um novo texto deste trabalho aqui no site! Boa Leitura!
29 Wittgenstein chama os segmentos heterogêneos da linguagem, como regras e finalidades próprias

de Jogo de Linguagem (WITTGENSTEIN, 1999). Através da linguagem podemos transmitir cultura,

dar ordens, contar piadas, etc. Mas o mais interessante disso tudo é o fato de que muitas vezes

fazemos isso utilizando as mesmas palavras. Por isso o filósofo percebe que o significado real de

uma palavra só é estabelecido dentro de um jogo de linguagem específico. Fora de um jogo a palavra

está completamente destituída de significado e se inserida em outro jogo de linguagem,

provavelmente assumirá uma nova significação. Quando colocada dentro do campo prático a

linguagem supera o papel secundário de apenas representar as coisas que existem no mundo e

passa a ter o poder de transcender os objetos, podendo assumir um significado muito além dos

objetos que pode representar. Por isso para o filósofo a linguagem possui uma função muito mais

importante do que apenas representar coisas. (SUMARES, 1994)

30 Nada tão grave não possa ser corrigido caso os professores e orientadores descubram o problema

a tempo e se empenhem em solucioná-lo. O problema é que quase sempre essas deficiências não

são identificadas a tempo.

31 Isso reforça ainda mais a necessidade da elaboração do currículo de forma racional.

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