sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

1.4 ALUNOS DESINTERESSADOS OU AULAS DESINTERESSANTES?


     Foi escrito anteriormente com um tom meio de filme de ação que passados os

medos e incertezas iniciais, cada dia no jardim de infância era uma aventura cheia

de experiências e descobertas magníficas. Mas o que aconteceu depois disso? Não

lembro exatamente, mas lembro de que aos poucos o ato de ir a escola começou a

se tornar chato e sacrificante. Vou me concentrar um pouco neste ponto deste

capítulo. Entre o inicio do meu jardim de infância e o final do Ensino Médio a Escola

permaneceu com seu mesmo pressuposto básico: “Alunos vão à escola para

aprender”. Assim sendo, neste primeiro momento o problema não é está ai. Resta a

análise se são os alunos que se tornam desinteressados ou se as aulas se tornam

desinteressante?

     Lembro-me que minhas aulas do início do Ensino Fundamental eram quase

iguais as aulas do Ensino Médio, exatamente por isso não podemos culpar o modelo

das aulas pelo desinteresse. É fato que as crianças se desinteressam pelos estudos

com a chegada da adolescência, mas somente com esta premissa não dá para
culparmos o desenvolvimento biológico das crianças10 por este súbito desinteresse

pela Escola. Julgo, pelos argumentos que serão apresentados nos próximos

capítulos, que devemos investigar a natureza da educação escolar e seus

paradigmas padrões.

      Nos primeiros quatro ou cinco anos de vida tudo é uma grande descoberta e

desafio. A criança encontra-se rodeada por um universo completamente

problemático que estimula seu questionamento reflexivo a cada instante. Por mais

conturbado que possa ser a família sempre conserva estas características.

Provavelmente a criança espera que a Escola seja a substituta natural de todas

estas características e “magia” vindas do lar e da família. (LIPMAN, 1995, p. 23)

     Toda esta expectativa sobre a Escola acaba por ser frustrada, pois aos poucos a

Escola se mostra um ambiente, frio, estático e completamente estruturado,

totalmente diferente da Família. Seus conteúdos pragmáticos não conseguem
demonstrar a fluidez e a “calorosidade” das ricas sensações, boas e ruins, que a

criança encontrava na Família. Lipman nos diz que o mistério natural do ambiente

familiar é substituído por um ambiente estável e estruturado, onde tudo é regular e

explícito. A Escola acaba por ficar sem incentivos naturais ao pensamento,

exatamente o oposto do que o ambiente familiar era capaz de fazer na primeira

infância. Lembro-me que durante minha adolescência, eu não tinha a menor vontade

de acordar cedo para ir assistir as aulas do meu Ensino Médio. Os únicos incentivos

que me faziam desligar o rádio e o videogame e ir para a escola não eram naturais

nem vinham da natureza escolar. O primeiro era minha crença que somente com um

bom aproveitamento na escola seria possível que eu conseguisse uma boa bolsa na

faculdade e futuramente um emprego que pudesse transformar minha condição

social para melhor. E o segundo era o prazer de me encontrar com os amigos, flertar

com as colegas e com a jovem professora de matemática.

     Chamo estes incentivos de artificiais, pois não são fruto da natureza escolar

tal como ela é encarada hoje. O primeiro incentivo é fruto da crença particular de

cada aluno de que o estudo é o melhor caminho para o sucesso social. Quero

ressaltar que este incentivo é bem particular, pois não são poucos aqueles que

acreditam que o esporte, a loteria, o crime, o tráfico de drogas, etc.; são caminhos

mais rápidos e interessantes para este fim. Porém todos concordam que a Escola é

sempre um caminho que pode ser considerado.

     O Segundo incentivo é geralmente malvisto pela maioria dos professores,

porém sempre devemos considerar que jovens que, assim como eu, nasceram em

família humilde e foram criados em bairros periféricos, não possuem condições de

frequentar clubes sociais, cinemas, teatro, casas de culturas, etc. A maioria dos

jovens nesta condição precisa conciliar os estudos com o trabalho, de maneira que

sempre ou falta tempo, ou falta dinheiro. Mesmo passeios gratuitos como passear à

tarde num parque, ir num museu ou assistir um concerto gratuito, acabam por

“roubar” muito tempo e dinheiro. Isto porque estas atividades geralmente ocorrem

nos grandes centros urbanos, longe das periferias e como o transporte público

costuma ser muito caro e lento, mesmo gratuitos, estes eventos permanecem

inacessíveis para boa parte dos nossos adolescentes. Assim sendo, a Escola acaba

se tornando o “clube social” para muitos estudantes, um local para se viver a vida,

cultivar amizades e inimizades, descobrir seus talentos, arriscar vários amores, se

iniciar sexualmente, manter a conversa sempre em dia, etc. Não quero entrar por
enquanto nesta questão, mas para muitas pessoas o período em que frequentam a

Escola representa o ápice das suas vidas sociais. A Escola e os seus profissionais

devem estar cientes deste fato e por isso necessitam buscar alternativas para se

respeitar e aproveitar melhor este momento tão especial.

     Referente aos professores se poderia pensar: “Se são autoridade dentro da

sala de aula, por que não conseguem tornar a experiência escolar mais interessante

para os alunos?”. Porém questionamentos deste gênero são injustos com nossos

professores. Eles também são vítimas de um modelo escolar ultrapassado e que

pressupõe uma série de paradigmas que tornam o processo ensino-aprendizagem

desinteressante. Geralmente eles só estão aplicando aquilo que aprenderam na

faculdade ou com a experiência docente. Por fim, nas poucas vezes que tentam

arriscar mudanças metodologias em suas aulas acabam por serem desestimulados

por colegas, orientadores, diretores, pais de alunos e até pelos próprios alunos.

Neste momento não tenho nenhum argumento que me faça crer que não está

correto que os alunos devem estudar e aprender uma série de conteúdos que são

considerados básicos para o desenvolvimento do corpo de conhecimento de

qualquer cidadão. O problema está na forma com que com que isso é feito.

Geralmente se encara ‘investigação’ como investigação cientifica e ‘conhecimento’

como conhecimento científico. Se quisermos uma Escola mais interessante, nunca

podemos esquecer que também existem investigações filosóficas, artísticas e físicas

além das tradicionais investigações científicas que geram o conhecimento científico

que geralmente é a base do currículo escolar.

      O processo de ensino-aprendizagem deve englobar todas estas dimensões

do aluno, assim sendo os conteúdos devem estar sempre abertos para discussões e

diálogos. Deve-se alimentar a curiosidade e valorizar a criatividade de cada um, só

assim a Escola poderá ser tão interessante quanto o último lançamento na rádio ou

contra a incontrolável vontade de se avançar ao próximo nível de um bom jogo de

videogame.

     Fica evidente que a natureza escolar não consegue trazer incentivos

interessantes para o aluno e que os mesmos acabam por buscar incentivos artificiais

para suportar a maçante experiência de frequentar a Escola. Desta maneira, a

transformação das radiantes crianças do jardim de infância nos seres passivos e

acríticos do ensino médio é uma consequência natural dos paradigmas da Escola

tal qual a encaramos hoje. Já passou da hora de começarmos a debater e construir
novos paradigmas e pressupostos que nos levem a uma reforma real no processo

ensino-aprendizagem. As próximas partes e capítulos deste trabalho estarão

concentrados na apresentação da tese da educação a partir das Comunidades de

Investigação de Matthew Lipman. Teoria esta que julgo ser bem orientada para que

seja atingido o objetivo deste trabalho: criticar o engessado modelo de Escola

padrão e apresentar uma alternativa mais interessante e gratificante para toda a

comunidade escolar.


 Este texto faz parte do trabalho chamado “Crítica a Escola” escrito por mim, Fabio Goulart. Para fazer o Download do trabalho Completo CLIQUE AQUI. Todos os dias será postado um novo texto deste trabalho aqui no site! Boa Leitura!

10 Adolescer / aborrecer
Comentários
1 Comentários

Um comentário:

  1. tenho como experiencia,que o desiterrese não é nenhum dos motivos relatados.É sim uma globalização de informações faceis e dinheiros corruptos mais faceis ainda.onde muitos estudam anos afio e não conseguem comprar o ultimo tipo de celualar enquento seu aluno "bolsa escola" trança entre os corredores das escolas,paparicando assuntos inuteis e sem conhecimento intelectual.logo as escolas passam a ser de desinterrese e sem moral para cobrar qualquer tipo de postura adequada a tamanha incoerencia do mundo atual.mundo este sem valorizar as essencias de valorização humana e familiares.Este sim é o real desinterrese de qualquer pessoa na vida cultural da aprendizagem.

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