terça-feira, 6 de dezembro de 2011

1.1 NASCIDO PARA IR À ESCOLA


Eu sou o lokinho de boné amarelo

     É estranho olhar hoje para o início de minha vida escolar e tentar fazer uma

análise sobre “o que aprendi”, “como aprendi” e se de fato aprendi alguma coisa.

Mais estranho ainda é pensar que fui parar dentro da escola tal como um

paraquedista que cai em uma floresta fechada e estranha. Eu estava totalmente

indefeso, o local era hostil, as demais crianças choravam e faziam tudo que era

possível para ficarem agarradas as suas mães e pais.
      Eu estava assustado, mas não chorei, afinal confiava cegamente em minha

mãe. Durante toda minha vida ela havia me dado muito amor e sempre fez tudo que

era possível para me proteger e me fazer feliz. Já havíamos conversados antes, mas

não conseguia entender o motivo pelo qual, depois de todos os cuidados que ela

teve comigo, o porquê me deixaria naquele ambiente estranho e frio, munido apenas

de uma pequena lancheira azul e de alguns mantimentos.

     Tive muito medo, mas com minha cabeça de cinco anos e três meses preferi

acreditar que estava ali porque minha mãe sabia exatamente o que iria acontecer

comigo. Visto que ela sempre quis meu bem, era evidente que o que iria acontecer

era bom.

     Para Matthew Lipman, a escola é a instituição mais universal entre todas as

instituições que podem existir dentro das comunidades. Esta tese parece estranha

quando escutamos pela primeira vez, porém não é necessária uma vasta pesquisa

antropológica e histórica para percebermos que tanto instituições elementares como

família ou as mais burocráticas como o Estado, sofrem mudanças radicais

dependendo da cultura e dá época em que se encontra. Por outro lado,

independente de tais fatores, a Escola é basicamente igual. O pressuposto universal

é que as crianças vão à escola para aprender.

    Nasci e fui criado no final da década de 1980 na periferia urbana de Porto

Alegre, Minha mãe sempre foi dona de casa e meu pai passava o maior tempo fora,

trabalhando e fazendo horas extras para garantir o sustento do lar. Acredito que se

eu nascesse em outra época ou em uma comunidade indígena, por exemplo, minha

vida seria completamente diferente, porém tenho certeza que a experiência que tive

em meus primeiros dias na Escola me causaria as mesmas sensações e

sentimentos.

     Hoje encaro minha entrada na vida escolar como um segundo nascimento,

isto porque tal como o feto encontra-se em um local seguro e aconchegante que é o

útero e de repente é expelido para um ambiente frio e perigoso que é o mundo, a

criança em idade escolar é retirada do conforto familiar e jogada em um ambiente

frio e hostil chamado ‘Escola’.

     Claro que a Escola não é um lugar ruim como estou deixando escapar e a

família não é tão segura quanto deveria ser, porém quando eu tinha cinco anos e

três meses de idade, era exatamente assim que eu percebia e sentia.
    Lipman avisa que um cético pode argumentar que tal como usamos a fala

para esconder nossos pensamentos, a Escola pode servir para impedir que as

nossas crianças aprendam a pensar por si mesmas. (LIPMAN, 1995, p. 11) Se em

algum lugar do mundo a Escola realmente é utilizada para este fim, certamente que

não atinge total êxito, afinal, a maioria das lembranças boas que temos da vida

escolar são momentos onde conseguimos pensar e agir com nossas próprias

cabeças. (LIPMAN, 1995, p. 11) Lembro-me perfeitamente de algumas “travessuras”

que fiz no jardim de infância, tal como o pequeno vazo sanitário que esculpi com

argila e a vez onde eu e alguns colegas resolvemos transformar a pia do banheiro

em piscina, e simplesmente não me lembro das concretas e objetivas fórmulas de

Física que estudei exaustivamente a pouco mais de cinco anos atrás no final do

Ensino Médio.

     Talvez por isso que existam tantas ilhas de pensamento que defendam que o
pensar na educação deveria ser a principal atividade da criança na Escola.1 O

Problema filosófico do pensar na educação é que não há uma explicação clara ou

evidente sobre os meios e métodos que necessitam ser criados e utilizados para que

possamos introduzi-lo na Escola. Não há nem mesmo uma opinião clara que

explique para quais finalidades servirá o pensar na educação. Lipman nos diz que

alguns grupos defendem que futuros cidadãos de uma democracia necessitam saber

fazer o bom uso da razão em seus julgamentos, outros acham que as crianças

apenas devem aprender a pensar com a própria cabeça para encontrar as próprias

soluções adequadas aos problemas que possam surgir em sua vida adulta

diminuindo ao máximo o risco de serem manipuladas por espertalhões de mau

caráter e, por fim, aqueles que afirmam que ‘pensar com a própria cabeça’ é um

direito de cada criança e que a Escola, mais que qualquer outra instituição, é

responsável por zelar por este direito.

     Ao invés do haver um interessante diálogo interdisciplinar entre Filosofia,

Pedagogia, Psicologia e alguma outra ciência relacionada, tivemos um verdadeiro

turbilhão de propostas, exigências desesperadas e muitos protestos pedindo por

reformas na educação. Alguns livros didáticos começaram a colocar exercícios

reflexivos com questões onde seu conteúdo pouco importava em meio a textos e

exercícios tradicionais, isto por volta do ano de 1980. Não demorou muito tempo
para a indústria dos testes perceber que estas questões eram complicadas de serem

avaliadas de maneira objetiva e que não seria somente através delas que se

conseguiria desenvolver o pensar crítico dos alunos. (LIPMAN, 1995, p. 12)

Daí por diante começou uma espécie de corrida em busca de “receitas

mágicas e simples” para introduzir o pensamento crítico nos currículos escolares

Norte Americanos. Nesta corrida aconteceu que muitas universidades dos Estados

Unidos acabaram por abandonar bem providos cursos de ciências humanas a fim de

oferecer cursinhos genéricos sobre o pensar crítico. (LIPMAN, 1995, p. 12)

Provavelmente se voltasse aos meus cinco anos e três meses de idade,

porém soubesse exatamente o que meus pais e os pais das demais crianças

realmente pensavam sobre a Escola, certamente teria chorado muito e me agarraria
a minha mãe como se aquele fosse o último dia da minha vida.2 No geral os pais não

sabem o porquê que as radiantes, espertas e curiosas crianças que entram no

jardim de infância em poucos anos se tornam desinteressadas e acríticas frente aos

estudos.

     Concordo plenamente com Matthew Lipman ao afirmar que muitos pais

chegam a desconfiar que o currículo da educação básica seja desenvolvido

especialmente para triturar toda esta motivação que a criança possui no início da

vida escolar, (LIPMAN, 1995, p. 12) transformando-a em um ser acrítico e

desanimado frente às descobertas e experiências que o ambiente escolar pode
proporcionar. Tal como no vídeo clipe da música Anoter brick in the Wall da banda

Pink Floyd.3

     No Brasil de hoje, nenhum professor ou escritor de livros didáticos cria um

currículo tentando mecanizar o processo ensino-aprendizagem, pelo menos não ao

nível do imaginário de certos pais. Porém apenas pelo fato de deixar transparecer

esta possibilidade, se deve ligar o sinal de alerta e começar a realizar as mudanças

que são necessárias para que se tenha um processo educacional e uma Escola
mais transparente para os pais,4 mais interessante para os alunos e mais gratificante

para os professores. Lipman comenta que devemos tentar delimitar filosoficamente
conceitos como ‘pensar crítico’ e ‘pensar com a própria cabeça ’. (LIPMAN, 1995, p.

13) Vou mais longe, julgo que devemos repensar conceitos como ‘Escola’, ‘educar’,

‘aprender’ e ‘ensinar’, isso porque para que possamos introduzir o pensar crítico em
nossas crianças, é necessário que isto seja feito por uma instituição (a Escola5),

através do processo de educação, que só é possível em um ambiente onde uns

conseguem ensinar (professores) e outros aprender (alunos). Devido ao fato de não

existirem consensos sobre estes conceitos, julgo que a maioria das abordagens

alternativas sobre o a introdução do pensamento crítico na Escola acaba se

tornando confusa, abstrata e não concreta, pois estes conceitos são alguns dos

fundamentos da natureza escolar. Seguindo este raciocínio, não precisa ser nenhum

gênio para perceber que a falta de clareza de tais fundamentos é o princípio da ruína

da maioria das tentativas de se renovar a educação.

     Fiz uma analogia, a alguns parágrafos atrás, entre o nascer e o entrar na

Escola, gostaria de terminar este capítulo comparando os primeiros anos de vida do

bebê, com os primeiros anos de vida escolar da criança.

     Após o nascimento o bebê está limitado a perceber somente suas

necessidades internas. Chora quando tem fome, medo, sono, etc. Conforme ele se

desenvolve, percebe que existe um mundo cheio de experiências e vivências a sua

volta. A criança em idade escolar também está limitada a somente perceber as

necessidades internas da família e aos poucos vai percebendo um mundo rico de

experiências e vivências fora dos limites familiares. Este mundo é o mundo do

conhecimento, o novo mundo que a criança descobre na escola. Assim sendo, tal

como é interessante para o bebê colocar as mais diversas coisas em sua boca e

sentir seus respectivos gostos, é interessante para a criança aprender as letras, as

siglas e expelir com a boca seus respectivos sons. Tal como é interessante para o

bebê descobrir as diferenças entre seu corpo e o corpo dos outros bebês, é

interessante para a criança perceber que suas ideias e convicções muitas vezes são

diferentes das ideias e convicções das outras crianças. Por fim, assim como o bebê

percebe que ao usar a linguagem oral consegue interpretar melhor o mundo que lhe

rodeia e consequentemente expressar melhor suas vontades, também a criança

percebe que a linguagem escrita e a matemática básica lhe dão acesso a um mundo
de informações que tornam suas vivências ainda mais interessantes e gratificantes.

Certamente que estes são alguns dos principais motivos para os primeiros anos de

vida escolar sejam tão divertidos e estimulantes.




 Este texto faz parte do trabalho chamado “Crítica a Escola” escrito por mim, Fabio Goulart. Para fazer o Download do trabalho Completo CLIQUE AQUI. Todos os dias será postado um novo texto deste trabalho aqui no site! Boa Leitura!

1 Pelo menos é exatamente isso que consigo observar em meus estudos e também observei no texto

de Lipman.
2 Afinal, aquele era realmente o ultimo dia da minha vida e o inicio de uma nova vida, a vida escolar.

3 "Another Brick in the Wall" é uma música escrita por Roger Waters. Faixa do álbum The Wall, da

banda inglesa Pink Floyd. Gravada e Lançada em 1979 pela gravadora Harvest Records,

Predefinição:Country data EUA, Columbia Records/Capitol Records, possui o gênero "Rock

progressivo", seu vídeo clipe pode ser facilmente localizado no site < http://www.youtube.com.br >

4 Ser mais transparente, no sentido que não deixe dúvidas quanto aos meios e fins da educação

aplicada nas crianças. No decorrer deste trabalho este assunto será novamente abordado.
5 Sempre que utilizarei o termos Escola escrito com a letra “E” inicial maiúscula, estarei me referindo

a escola enquanto instituição. Da mesma forma quando escrever Estado e Família com letra

maiúscula, também estarei me referindo ao estado e a família enquanto instituição.  
Comentários
1 Comentários

Um comentário:

  1. Na minha opinião, o papel principal da escola deveria ser, ajudar a criança, o adolescente e o adulto á descobrir e desenvolver suas vocações, e tbm, formar cidadões críticos e pró ativos para atuar na sociedade, não só profissionalmente como tbm em outros aspectos

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