quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

1.2 GUERRA NA ESCOLA




     Falei no primeiro capítulo que fui parar na escola tal como um paraquedista

que cai em una floresta fechada e estranha. Para que facilite sua capacidade de

imaginar as sensações que tive em meus primeiros dias na Escola e, quem sabe,

reativar suas próprias memórias acerca da sua entrada na vida escolar, apelarei ao

uso de uma breve metáfora baseada em filmes de ação norte americanos, como:

Nascido Para Matar, Apocalypse Now, O Resgate do Soldado Ryan,6 etc.

      Era como estivéssemos em um enorme avião bombardeiro. Estávamos

devidamente fardados e municiados com nossas lancheiras, alguns mantimentos,

canetas hidrográficas, tesoura sem ponta e uma caixinha de giz de cera. Cada

família passava para seu soldado ordens estranhas e contraditórias, como: “faça

tudo que sua professora ordenar”; “não converse com estranhos”; “não bata em seus

coleguinhas”; etc.

     De repente uma senhora gorda surge pela porta e com sua voz brada:

“chegou a hora do salto”. Alguns companheiros já haviam lutado e sobrevivido a

outras batalhas como a creche e a casa da vovó, mas naquele instante o pavor

tomou conta de todos. Alguns choravam desesperadamente e outros, assim como

eu, engoliam um choro seco tentando se preparar para o que poderia nos aguardar

além da porta daquele avião.

     Um a um éramos jogados para fora do bombardeiro. Em pouco tempo, já

estávamos com o os pés no chão. O local era uma floresta estranha e hostil, porém

também parecia ser interessante e desafiadora. Lá encontramos os professores,

seres estranhos e inteligentes, que nos acolherem e nos agruparam em pequenos

grupos, Cada dia na Floresta representava uma série de novas descobertas e

diversão. Mesmo longe da família tínhamos ânimo e uma vontade inesgotável de


seguir lutando, combatendo e quebrando a cada dia um novo limite de nosso

conhecimento.

     Nossos afazeres diários eram tão intrigantes que, no geral, demoramos anos

para perceber que estávamos em meio a um pesado fogo cruzado. Eram bombas

pra todo lado, granadas, tiros, aviões militares e nós exatamente no meio disso tudo

sem perceber absolutamente nada. Literalmente falando, éramos crianças

indefesas. Nossa pequena floresta chamada Escola estava cercada pelos mais

diversos tipos de facções. Dentre elas poderíamos citar: Partidos políticos, Grupos

terroristas, igrejas, crime organizado, etc.; e as duas mais gerais e poderosas de

todas: a Família, representando os valores privados institucionalizados; e o Estado,

representando valores públicos institucionalizados.

     É difícil determinar qual destas grandes forças tem vantagem nesta guerra.

Para Lipman (LIPMAN, 1995, p. 19) ambas se equivalem, isto porque a Escola não é

uma entidade passiva neste duelo, além de estar em posição de mediadora, ela

representa a fusão de valores públicos e privados. Assim sendo, temos três tipos

básicos de instituições públicas e privadas:

               1° De valores privados institucionalizados (Família);

               2° De valores públicos institucionalizados (Estado);

               3° A fusão de ambos os valores (Escola).

     De certa maneira, a Escola representa o modelo com mais força e

importância neste combate. Isto porque, em algum momento de sua vida, todos irão

passar por algum tipo de escola, é a partir dela que as gerações do passado e do

presente tentam moldar as gerações futuras e deixar sua marca na história.

     Dificilmente alguém admite esta verdade, mas o fato é que cada família, cada

governo, cada facção no geral, deseja ter o controle da Escola e como consequência

imprimir seus valores e convicções nos respectivos estudantes. É horrível pensar

uma escola onde as crianças e os adolescentes sejam obrigados a aceitar

determinada posição como verdadeira, sem a possibilidade de ao menos conhecer

outras perspectivas. Mais horrível ainda é o fato que neste exato momento deve

existir várias escolas no mundo vivendo esta situação.

      Quando um pai matricula um filho em uma escola, o mínimo que espera é que

haja segurança e um ensino que possa prepara sua criança para viver de maneira

racional e independente dentro de determinada cultura e época. Dificilmente um pai

gostaria de saber que a escola a qual “entrega” seu filho todos os dias atende

somente interesses particulares de alguma facção específica. Para ter seu lugar

respeitado em uma sociedade democrática a Escola necessita ser vista como “a

representante de todas as facções”. (LIPMAN, 1995, p. 20) O filósofo segue sua

argumentação dizendo que esta posição de “a representante de todas as facções”

gera pelo menos dois problemas que, julgo que a enfraquecem em quanto

instituição.

     O primeiro: Com medo de ser taxada de defensora de determinados ideais e

opressora de outros, a Escola acaba por se manter demasiadamente conservadora.

Desta maneira ela consegue manter sua função de representante de todos, porém

tem sua autonomia7 limitada. Fato que neste momento julgo que acabe por deixá-la

engessada frente a seus problemas, basicamente incapaz de mudanças estruturais

que a tronem mais interessante e dinâmica frente às novas necessidades de

nossos jovens, adolescentes e crianças;

     O segundo: Escolas, professores, secretarias de educação, editores de livros

didáticos, etc. Todos estes ficam em um grande “jogo de empurra”, onde nenhuma

das partes resolve assumir a responsabilidade de arriscar mudanças que possam

revolucionar8 o processo de ensino-aprendizagem.

     Lembro-me perfeitamente que em meados da década de 1990 a prefeitura

municipal de Porto Alegre decidiu implantar o modelo ciclado de ensino em todas as

escolas de sua respectiva rede. Tal decisão possuía ampla fundamentação política

e pedagógica, mas gerou muita desconfiança entre pais e professores. Ninguém

sabia o iria acontecer, mas se esperava verdadeiras revoluções tanto na maneira

dos professores darem aula, tanto no conteúdo que os alunos receberiam.

Exatamente por esta possibilidade de mudança se criou um grande temor, o

que é estranho, afinal todos concordavam e estavam cientes que a educação

tradicional seriada necessitava de mudanças urgentes.

     Nesta época eu tinha entre dez e onze anos de idade, estudava em uma

escola municipal e não senti nenhum tipo de revolução. O que senti foi a simples

troca das antigas séries pelos ciclos, da repetência pelas turmas de progressão, das

notas pelos conceitos, etc. Para Lipman, devido a tudo que citei acima, a Escola

enquanto instituição evolui tal como um barco com o leme emperrado, andando em

círculos, vindo de nenhuma parte e indo pra lugar nenhum.

      Curioso, Comecei este subcapítulo como um emocionante filme de ação e

acabei terminando com politicagens e burocracias que mais lembram um monótono

horário eleitoral gratuito.






 Este texto faz parte do trabalho chamado “Crítica a Escola”escrito por mim Fabio Goulart. Para fazer o Download do trabalho Completo CLIQUE AQUI. Todos os dias será postado um novo texto deste trabalho aqui no site! Boa Leitura!

6 "Nascido para Matar", originalmente conhecido como: Full Metal Jacket é um filme norte americano

de 1987, dirigido por Stanley Kubrick; "Apocalypse Now" é um filme norte americano de 1979, dirigido

por Francis Ford Coppola; "O Resgate do Soldado Ryan", originalmente conhecido como: Saving

Private Ryan, é um filme norte americano de 1998 da Paramount Pictures, dirigido por Steven

Spielberg.
7 Sempre que for utilizado este termo ou termos derivados neste trabalho, não podemos associá-lo ao

uso cotidiano de “aquele que independe da colaboração dos outros” ou “o macho cognitivo

autossuficiente ”. Em Lipman autonomia tem o sentido de “pensar por si mesmo e fazer os próprios

julgamentos a partir das provas coletadas”. Julgo que esta visão é muito mais adequada a este

termo, principalmente quando o assunto é filosofia da educação.

8 Revolucionar aqui não significa causar revoluções violentas ou espetaculares. Significa tornar a

Escola realmente autônoma e o processo ensino-aprendizagem realmente dinâmico a ponto de

conseguir fazer com que os alunos pensem com a própria cabeça.
Comentários
2 Comentários

2 comentários:

  1. "jogo de empurra", há mais uma falta de preparo, instruções e desenvolvimento de ideias, que propriamente "falta de responsabilidade", porém pode entender-se que ambos caminham junto.
    a meu ver, há tanto um desinteresse de evolução educacional, quanto um despreparo para o mesmo. enquanto se há docentes que pretendem melhorias, se há por outro lado o desinteresse das instituições, ou o contrário...

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  2. Concordo em gênero numero e grau, leitor "Anônimo"

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