sexta-feira, 16 de março de 2018

Quando o carnaval e os protestos se unem

por Fabio Goulart

Nunca fui muito fã de carnaval, mas também nunca fui destes chatos que todo ano ficam reclamando desta que é a maior festa popular do Brasil. Um tipo de postagem que já torrou minha paciência é quando alguém fala “Pra fazer carnaval milhões vão às ruas, mas pra protestar não vai ninguém.” Carnaval é festa e folia, um tempo de bom humor e zueira  e como dizia o filósofo canadense Marshall Mcluhan: toda zueira, traz consigo elementos de critica e de insatisfação.

Temos uma semana de carnaval para aliviar um ano pesado que vem pela frente, curtir e zuar para esquecer e não chorar, para tentar fazer com que o peso da vida pareça mais leve. Em 2018 a tal critica e insatisfação dos foliões dita por Mcluhan ficou evidente e marcada nas marchinhas com temas políticos de centenas de blocos pelo país, nas fantasias sátiras de foliões anônimos, mas acima de tudo nos dois desfiles mais belos das escolas de samba do Rio de Janeiro. Sambas enredos sempre despertaram minha atenção pela beleza com que conseguiam abordar grandes temas da história deste país, justo o samba que surgiu nos morros pra retratar o cotidiano das comunidades oriundas da exclusão social.
Os desfiles das escolas Paraíso do Tuiuti e a Beija-Flor de Nilópolis podem ser interpretados sob várias possibilidades semióticas e sociológicas, poderíamos pensar na narrativa da pequena escola agigantando-se contra a poderosa Beija-Flor, poderíamos pensar no renascimento da Tuiuti após o trágico desfile de 2017 etc. Mas a narrativa que me agrada é a das duas maneiras de encararmos os problemas nos quais no país se afunda.
            Beija-Flor de Nilópolis, a grande escola, trouxe em seu desfile um discurso velho de senso comum que culpa uma tal corrupção abstrata pelas coisas não estarem dando certo. Alegorias com ratos roedores de malas de dinheiro, a Petrobrás arruinada, violência e miséria sendo apresentadas como causas etc. Mas o que poderia estar por trás dando suporte a toda nossa decadência? Um vácuo que só é preenchido por um outro vácuo chamado “corrupção”, se os políticos são corruptos, quem são os corruptores? Quem são os corruptíveis? No desfile da Beija-Flor: nenhuma resposta. Nada de novo em relação ao que assistimos nas novelas ou nos telejornais.
Já a Paraíso do Tuiuti, a pequena escola, mostrou um desfile e samba enredo que atacava justamente as lacunas do discurso ideológico do senso comum. Corrupção, violência e miséria também apareceram como problemas, mas as causas estavam desnudas. Foi um desfile profundo, inteligente e até sofisticado. Como tantos outros sambas enredos tudo começou na escravidão, mas esta foi exposta como a nervura central da nossa decadência. Escravidão que não acabou, mas que tomou novas formas e explode hoje na forma dos subempregos que tendem a se tornar cada vez mais comuns após a reforma trabalhista que deu suas caras na ala das carteiras de trabalho queimadas. Discriminação, exclusão, a criação de uma elite financeira corrupta e gananciosa que suga para si as grandes vantagens de um país produtivo e gigantesco, eis os corruptores. A ala dos Manifestoches manipulados por uma mão gigante, representando os corruptíveis, ou seja, a classe média manipulada pelos verdadeiros donos do poder. E o grande destaque era o Presidente Vampiro Neoliberalista coordenando que tudo siga o roteiro. Brilhante! Presidente Vampiro Neoliberalista! Que imagem! E isso não só pela semelhança entre Michel Temer e o ator húngaro Bela Lugosi do filme Drácula de 1931, mas por aquilo que um vampiro representa na mitologia, um ser que se esconde nas trevas, que é quase imortal, mas que essa sua quase imortalidade depende de sugar o sangue dos que vivem na luz. Quer imagem melhor para retratar o projeto neoliberal conta o Estado ao se entranhar nas altas cúpulas do poder estatal?
Para o professor Wilson Ferreira da Universidade Anhembi Morumbi os carnavalescos da escola Paraíso do Tuiuti deram para os que ainda sonham com um Brasil mais justo e igualitário a mais simples lição de que é possível lutar no mesmo campo das bombas semióticas dos detentores do poder e isso não significa apenas fazer "postagens no Face" ou "trolar" uma transmissão ao vivo. Pode-se fazer algo gigante e poético gerando efeito de "agendamento" posterior, ou seja, virar pauta de discussões nas conversas de todos nós. Veja bem, estamos já em março e ainda estamos falando sobre isso.
No fim da história a Beija-Flor ganhou, a Tuiuti ficou em segundo. Tecnicamente o desfile da grande escola foi melhor, mas o impacto semiótico da pequena escola foi magnânimo.

“Senhor, eu não tenho a sua fé, e nem tenho a sua cor
Tenho sangue avermelhado
O mesmo que escorre da ferida
Mostra que a vida se lamenta por nós dois
Mas falta em seu peito um coração
Ao me dar a escravidão e um prato de feijão com arroz.”

Trecho do samba enredo da Paraiso do Tuiuti de 2018

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