sábado, 18 de janeiro de 2014

O Rolezinho - O Som da Verdade #17



Olá! Minha coluna O Som da Verdade de hoje, será diferente.

Hoje vou abordar o assunto: "Rolezinho", este tema vem sendo noticiado a algum tempo, nos principais jornais, portais e nas redes sociais e por este motivo resolvemos tratá-lo por aqui.

Primeiramente, é necessário que você entenda como isso começou, então segue um breve resumo:
Desde o fim de 2013, jovens têm organizado encontros pelas redes sociais, principalmente, em shoppings da capital paulista e da Grande São Paulo. Os eventos ficaram conhecidos como "rolezinhos". A primeira iniciativa a ganhar repercussão aconteceu no Shopping Metrô Itaquera, Zona Leste de São Paulo, em 8 dezembro.  Algumas lojas fecharam com medo de saques e o centro comercial encerrou o expediente mais cedo.

Este tipo de encontro em lugares públicos-privados não é propriamente uma novidade em São Paulo. 
E não começaram especificamente no ano passado. Ocorreram mais eventos deste tipo, como você pode ver em: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2014/01/conheca-historia-dos-rolezinhos-em-sao-paulo.html
 
Os passeios romperam a fronteira paulistana. Em Porto Alegre, há dois eventos sendo convocados por meio Facebook: no Shopping Moinhos, no próximo domingo, e no Barra Shopping, em 1º de fevereiro.
Resolvemos entrevistar os organizadores do evento Marcia Santos (Organizador do evento no Shopping Moinhos) e Luana Mendonça (Organizadora do Shopping Praia de Belas).

Por uma questão de receio quanto a retaliações por parte das autoridades e pessoas contrárias ao evento, os organizadores do evento, me pediram ajuda na divulgação, cobertura e organização e estou auxiliando e acompanhando, para evitar atos violentos.

Segue a entrevista:

1) Márcio. O que você acha sobre o que aconteceu nos "Rolezinhos" em SP? Qual sua opinião sobre o assunto? Rolezinhos acontecem desde a década de 80, 90, quando os shoppings se proliferaram pelas cidades brasileiras. O espaço sempre foi de lazer. Eu, por exemplo, fumei o meu primeiro cigarro dentro de um shopping.  Hoje não fumo mais e é proibido fumar em lugares fechados. Muita coisa mudou. O que piorou foi a educação no país. Chegou num ponto que o jovem da periferia é tão viciado no funk, que ele não respeita mais quem está do seu lado. Ele leva seu som para dentro do metrô, do trem e do shopping. Alguns se transformaram em vândalos. O grande problema é que nem todos são vândalos. E a PM truculenta e sem educação também, impediu a entrada desses jovens de maneira violenta, na maioria negros e pardos, de entrar nestes estabelecimentos comercias. Aí surgiu o problema. 

2) Por qual motivo você acha que algumas pessoas "abraçaram esta causa" que ocorreu em SP, assim como você está fazendo? Acredito que os protestos realizados em junho não foram suficientes para sanar os anseios imediatos dos brasileiros. Estamos no ano da Copa do Mundo, muito dinheiro está circulando, muita corrupção está acontecendo. A inflação está sendo ocultada, os alimentos, serviços, impostos estão muito caros e ninguém está satisfeito com a atual política econômica do país. Assim como o preço da passagem no ano passado, o problema racial agora parece ser estopim do desconforto da população.

3) Tem pessoas que não sabem.O que é "Rolezinho" e qual o significado disso? Em São Paulo ir pra balada também pode ser definido como "dar um rolê". Os rolezinhos nos shoppings são momentos lazer dos jovens da periferia. Eles andam em turmas, escutam funk, namoram, paqueram. O que todo mundo já fez ou faz quando estava na idade deles. A diferença está nos novos hábitos desses jovens que se proliferaram, ganham seus salários, vivem ouvindo funk ostentação, e querem consumir em shoppings. Só que eles não se separam de suas caixas de som e causou o problema.

4) Por qual motivo você decidiu fazer isso em Porto Alegre? Eu vi que no Rio de Janeiro vai acontecer o evento no mesmo dia e horário que marquei aqui. Assim como lá, decidi apoiar a causa do racismo e da desigualdade. Acho que o país é um só, não somos um outro país. A causa lá e aqui é a mesma. O racismo aqui é bem pior que em São Paulo.

5) A principal preocupação das pessoas Márcio, é com a segurança. Como vocês estão tratando, programando este "rolezinho"? Como será no quesito segurança? Hoje vamos conversar com administração do Moinhos Shopping e definiremos se ocorrerá dentro ou fora do estabelecimento. Se for dentro, o shopping tem seus próprios seguranças. Se for fora, avisaremos a Brigada Militar sobre o ato.

6) Como será organizado, será dentro, fora, do Shopping? Queremos entrar. O encontro inicial será fora. Depois vamos percorrer os corredores do shopping até a praça de alimentação, civilizadamente, e faremos uma espécie de pic nic nas mesas do local. 

7) O que mais as pessoas perguntam é: Para que fazer isso? o que você pensa sobre isso? Qual o propósito deste evento? Qual o efeito prático disso? O propósito, o motivo é um só: apoio aos jovens pobres e negros do país. Eu penso que protestar é cultura de países de primeiro mundo, aqui estamos em desenvolvimento, e as pessoas estão se acostumando com estes eventos. E por isso existem muitas dúvidas.

8) O que será feito lá no Moinhos efetivamente? O que vocês farão lá no local fisicamente? Vamos nos encontrar na rua, percorrer os corredores, assim como são os rolês. Iremos até a praça de alimentação e, num ato simbólico, será distribuído pão com mortadela. O ideal é que os pobres e negros se sintam a vontade e sejam bem vindos no shopping. Assim como deve ser em qualquer lugar.

9) Temos visto várias pessoas indignadas com estes Rolezinhos, dizem que há violência, arrastão, roubo, música alta, baderna, etc. O que você pensa sobre isso? E nós, teremos alguma destas coisas aqui em Porto Alegre? Como será?  Eu acredito que num futuro próximo não será diferente a introdução de pobres, negros e pardos que gostam de funk ocuparem espaços que antes não ocupavam. O país está num processo de mudanças sociais. No ato programado pra domingo não queremos violência, arrastão e musica alta. Queremos um rolê civilizado. É preciso deixar claro que pobre e negro pode sim ter educação. É preciso deixar claro também que o país precisa urgentemente de investimento na educação já que esse tipo de problema acontece numa cidade grande como São Paulo. 

10) Você acha que existe preconceito racial, social, cultural? E Contra o Funk? Existe sim e não só no Brasil. Mesmo nos Estados Unidos, que já elegeu um presidente negro, existe. E talvez sempre vá existir. O que não pode acontecer é violar os direitos dessas pessoas. Em relação ao funk também existe ojeriza. E não deveria, pois o funk ouvido por estes jovens é genuíno, brasileiro. É a nossa cara. Infelizmente. O que podemos fazer agora é cobrar dos governantes, nossos representantes políticos, investimento na educação, e acreditar que, assim, a qualidade dessa música melhore.

Autor: (Crítico Social Fábio Fleck Filosofia Hoje)

Comentários
1 Comentários

Um comentário:

  1. Excelente matéria. Proibir os jovens de passear em local público é inconstitucional, mas a intenção, penso eu, é exatamente engrossar a barreira entre classes sociais e reforçar estigmas. A educação dada aos pobres é pior, a "cultura" injetada nos pobres é pior, logo, é injusto culpá-los pela miséria intelectual e civil que eles enfrentam. Existem inúmeras tentativas de distanciamento entre as classes e esse lance do Rolezinho é só a cereja do bolo.

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