domingo, 23 de junho de 2013

OS FILHOS DA COCA-COLA

      Vladimir Safatle diz que sua geração, dotada de homens e mulheres que hoje passam dos quarenta anos de vida, foi a geração que quebrou o mundo. O que então resta para os filhos desta geração?

      Parece-me que os riscos assumidos pela geração de nossos pais que hoje dominam os mercados financeiros e as lideranças políticas mundiais, foram demasiadamente altos. Poucos enriqueceram muito e muitos se afundaram em dividas ou na miséria absoluta. Por fim, entramos em uma crise econômica que não sabemos como sair, ou nas palavras do autor, esta geração “simplesmente conseguiu quebrar o mundo”.

       Após a derrota do totalitarismo na segunda guerra mundial, a queda de muitas ditaduras e o fim do socialismo já há aproximadamente vinte anos atrás, o mundo parecia estar caminhando para o lugar certo. Talvez por isso os jovens daquela época caíram no erro de achar que não era mais necessária a participação popular nas grandes decisões do planeta. Tal geração se entregou à corrupção, à especulação imobiliária, à indústria cultural, aos abusos financeiros ao endividamento desenfreado, ao conceito de “viver bem” e acabaram por se esquecer de que não há vida boa sem calor humano, justiça, sustentabilidade ambiental e equidade social. Safatle se pergunta: “Como acreditamos durante tanto tempo que nenhum acontecimento real pudesse ocorrer?(...) como se acreditou durante tanto tempo que a roda da história estava parada(...)”(Safatle, 2012, p.54). Esta foi a geração que criou o maior de todos os movimentos totalitários, o movimento totalitário do dinheiro. Foram os homens que desacreditaram no poder das multidões entregando aos “místicos” princípios do liberalismo econômico o futuro do planeta e com isso colocaram em funcionamento uma das mais assassinas formas de poder da história da humanidade.

      Eu  sou  um  filho  desta  geração.  Um  jovem  que  como tantos outros desfrutamos de pouco mais ou pouco menos de vinte anos de idade e possuímos histórias de vida semelhantes. Passamos a infância em creches e escolas desacolhedoras. Ainda muito jovens tivemos nossa imagem fantasiosa do mundo manchada pelos ataques terroristas de onze de setembro. Assistimos vários colegas perderem suas vidas para as drogas, para o crime, ou para insanidade total que os levou a invadir a escola armados e prontos para massacres. Nossos pais perderem empregos de mais de trinta anos devido à súbita falência de suas empresas. Fomos tomados por um falsificado “espírito nacionalista libertador” que nos colocou em guerras contra inimigos que de fato nem existiam. Por fim, nos formamos na faculdade e nos deparamos com uma porção de promessas não cumpridas e com um mundo poluído e falido de herança.

       Não acreditamos mais nas instituições tradicionais. A escola nos ensinou tudo errado, pois estava perfeitamente submetida à logica dominadora do sistema supracitado. A mídia não presta e mente para defender os interesses dos anunciantes. A igreja secularizou-se, matou deus, se converteu ao capitalismo e virou um mercadão da fé. A família se tornou uma utopia baseada nos alegres comerciais de margarina. Sindicatos e partidos políticos só defendem seus interesses privados. O clima e a economia se tornaram caóticos, poluídos e imprevisíveis. Estado Moderno se tornou uma instituição privada sob a tutela de políticos corruptos distantes do povo...

       Se a geração anterior realmente acreditava que o mundo caminhava para o lugar certo e os mais jovens já sabem que isso é uma grande mentira, nós somos os filhos do meio da história. Somos os mais afetados, somos os esvaziados, somos os indignados. Temos o dever de protestar e contra o que foi necessário. Temos o direito que querer mudar o Brasil.
(Filósofo Fabio Goulart)
Foto de: Gustavo Basso www.gustavobasso.com
Comentários
3 Comentários

3 comentários:

  1. Muito apropria sua análise, eu sou da geração de um pouco mais de 40 anos, e penso também que o custo da tal qualidade de vida virou uma corrida desenfreada e egoísta do meu próprio bem estar. Tudo e qualquer ação ficou meio que balizada e justificada por este valor. Mas adiante disto muitas pessoas também tiveram os olhos abertos como os seus. Em meio a tudo o que você descreveu muitas instituições foram criadas para ajudar os menos afortunados ou frágeis; visando ajudar os bichanos, as crianças, os velhinhos, a natureza. Enfim é natural que a raça humana se refaça, se revalorize, se repense, e acredito que você, com seus textos e pensamentos sempre tão lúcidos e bem estruturados, é produto deste movimento de renovação. Parabéns pelos seus posts, sua fã Andréia.

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