sexta-feira, 6 de julho de 2012

SINCRONIA COSMOPOLITA FEBRIL



Fabio Goulart[1]
RESUMO

No ano de 2011 pessoas de todo o mundo começaram a indignar através das redes sociais e blogs da internet contra as mais variadas injustiças do mundo. Uns queriam liberdade e democracia, outros criticavam os abusos dos bancos e alguns apenas queriam ter comida digna na mesa todos os dias. Em pouco tempo o mundo virtual e o real se viram contaminados por uma sincronia cosmopolita febril que levou multidões às praças de todo o mundo e conseguiu, entre outras coisas, derrubar ditaduras opressoras e muito antigas. Com base em estudos, análise de mundo e vivências do autor, este trabalho visa clarificar à luz da filosofia os movimentos do tipo Occupy em suas mais variadas formas.  

PALAVRAS-CHAVES: Occupy. Autonomia do indivíduo. Internet.

ABSTRACT
In 2011 people from around the world began to be indignant through social networks and Internet blogs against various injustices in the world. Some people wanted freedom and democracy, others criticized the abuses of the banks and others just wanted to have decent food on the table every day. In a short time real and virtual world found themselves infected by a feverish sync cosmopolitan, masses that took the squares around the world and has, among other things, to overthrow very old oppressive dictatorships. Based on studies, analysis of world and experiences of the author, this paper aims to clarify in the light of philosophy the Occupy movements in yours more various forms.

KEYWORDS: Occupy. Autonomy of the individual. Internet.

PRÓLOGO

Havia um silêncio desolador naqueles dias. Os bolsos, as praças e as almas estavam vazios. Não havia revoluções, porém eram poucos os satisfeitos. Cada um tinha sua crise, cada um estava com problemas demais para pensar nos problemas dos outros. Foi ai que na calada dos bits, as pontas dos dedos dos oprimidos gritaram não palavras de ordem, mas sim brados de “basta”. E assim, através da frieza das telas sentiu-se novamente o calor humano dos distantes e dos próximos. Percebeu-se que esta não era apenas uma luta de descontentes solitários... Era a luta dos 99% conta 1%. Neste momento muitos se soltaram das correntes, saíram de suas cavernas e se reuniram simplesmente para ocupar os templos daqueles que haviam esvaziado suas vidas.

SOMOS TODOS MOHAMED BOUAZIZI

O que pode a economia na política se torna uma pergunta secundária quando a defrontamos com a pergunta “O que pode a economia na vida de um simples indivíduo“. O século XX teve uma série de acontecimentos que de certa forma acabaram por autoafirmar o sistema capitalista baseado no liberalismo político. Não critico tal sistema em si, pois dentre todas alternativas e proposta aplicadas no século passado ele se mostrou como a mais capaz de promover a igualdade, o desenvolvimento e a justiça entre os povos.
Minha crítica se dá ao fato deste ser um sistema contraditório, pois é baseado na diferença, mas que busca uniformizar os pensamentos, os sonhos, as vontades e tudo mais que compõe o que podemos chamar de força de originalidade dos indivíduos. Tal sistema gira a partir de uma lógica interna autorreguladora e retroalimentadora que nos ensina a tratar com hostilidade tudo que se apresenta como diferente de si mesma para assim se autoconservar de ameaças internas e externas. Justamente assim o sistema cria seu jeito de se impor sobre os indivíduos, falsificando a impressão de já estar contido na essência de cada um, forçando-nos o princípio de identidade que acaba por impossibilitar o exercício da autonomia plena e tenta se colocar no lugar de uma suposta natureza humana.
Assim começa o processo esvaziamento psicológicos dos indivíduos. O que acontece é que a partir do sistema criamos uma série de conceitos na tentativa de tentar explicar o mundo e os próprios indivíduos. O problema ocorre, pois ao estabelecermos os conceitos acabamos por passar a tentar entender o mundo a partir dos conceitos que nós mesmos criamos. Não faço crítica ao nosso aparato cognitivo, seria demasiadamente complicado se a cada cadeira que avistássemos tivéssemos que fazer uma longa observação, para tentar entender o objeto que se apresentava diante de nossos sentidos. Realmente é justo criarmos o conceito “cadeira”, que não representa uma cadeira em si, nem todas as cadeiras ao mesmo tempo, mas que conserva certas características, positivas e negativas, que se o objeto as apresentar, logo: será uma cadeira. Neste processo, não só nos valemos do conceito de cadeira durante nossas vidas como também o transmitimos para nossos filhos e netos que se utilização deste conceito previamente elaborado e assim poderão, entre outras coisas, se dedicar a elaboração de novos conceitos de coisas que ainda não havíamos dado conceito algum.
Este aparato é válido e permitiu todo desenvolvimento filosófico e científico dos tempos das cavernas até os dias atuais, porém carrega consigo ocultamente um viés opressor, alienador e discriminatório. A coisa em si e até mesmo o fenômeno da coisa em sua magnitude acabam insignificantes perante a força descritiva e totalizadora do conceito identificador. Há uma espécie de barbárie epistemológica.
Como então falamos de objetos cujo não encontramos sua correspondência no mundo material? Como falamos do outro? Não falamos. Limitamo-nos ao seu conceito. Isto acaba por esvaziar de sentido e significado de uma série de conceitos básicos e essenciais para que possamos entender a nós mesmos e ao mundo do qual fazemos parte. Assim sendo, quando falamos em liberdade, não falamos na liberdade que desejamos, ainda que irracionalmente, enquanto projetos de indivíduos livres e autônomos, falamos de uma liberdade conceitual baseada numa série de procedimentos teóricos e jurídicos. Desta maneira esvaziamos de tal forma o conceito de liberdade, que a liberdade em si acaba por se tornar uma espécie de fantasia política e acabamos por ficar sem vontade para buscá-la. Cito Zamora:
(...)a liberdade do sujeito não se identifica com a liberdade e igualdade garantidas pelos procedimentos jurídicos e políticos do Estado. Ao tentar salvar a autonomia moral da razão pura frente de todo encadeamento social, a ordem social e sua regularização jurídica ficam em parte também a salvo da determinação moral que assim é privatizada e neutralizada (Moreira, 2008, p.16).

De uns séculos para cá, o espírito iluminista proposto pela modernidade acabou dando lugar ao espírito individualista. O sistema capitalista em suas mais variadas formas pelo mundo nos deixou incapaz de enxergar o outro e isso nos esvazia, pois também acaba por nos privar do privilégio de ver refletido no olhar do próximo a nós mesmos e nossas aspirações. Nossa ânsia por tentar determinar o que as coisas são através da força do conceito eclode nas relações humanas mais básicas[2], gerando uma automutilação que nos que nos esvazia psicologicamente nos deixando a mercê de razões externas, como: doutrinas políticas, dogmas religiosa, a indústria cultural, etc.
Temos assim toda nossa originalidade e humanidade estripadas. Nossa autonomia foi falsificada e substituída por uma série de sonhos e ideais ligados ao consumismo. Nossa identidade está tão fragilizada que está basicamente ancorada às roupas que usamos, aos carros que guiamos, às casas que jazemos, às funções sociais que executamos, etc.

Karl Marx[3]:
(...) confiava que a contradição interna do capitalismo e a agudização da injustiça que sofria o proletariado, constituiria um sujeito revolucionário capaz de por fim a todo tipo de dominação social, isto é, de alcançar uma verdadeira emancipação (Moreira, 2008, p.17). 

Infelizmente Marx estava errado, a contradição verificada no capitalismo gerou um sujeito psicologicamente esvaziado, sem identidade própria, que pode ser facilmente manipulado por espetáculos estéticos, que busca acima de tudo dominar para não ser dominado, que pouco faz em busca da autoemancipação e que foi e é capaz de abdicar de sua própria racionalidade e humanidade em direção a regimes nazistas e fascistas, como de fato ocorreu em meados do século XX. Mas isso foi a mais de cinquenta anos atrás, temos as cicatrizes expostas e muitas delas ainda sangram em nossa política internacional.
A indignação e revolta dos oprimidos acaba convertida em auto conservação do sistema. Sou professor de escola e sempre vejo muitos pais, alunos e colegas professores reclamando da qualidade do ensino público brasileiro que vem sendo sistematicamente sucateado a partir dos anos de governo militar. Porém poucos são os que canalizam sua revolta na forma de protestos e projetos que vão além da garantia de seus próprios direitos e salários maiores. No geral, nossa grande vitória e motivo de orgulho ocorrem quando conseguirmos dar aos nossos filhos educação particular, cara, porém de qualidade.
Num sistema baseado na diferença é evidente que somente alguns possam vencer e que a grande maioria fracassará. Talvez por isso as filas para comprar bilhetes de loteria sejam tão grandes e países como o Brasil reverenciem astros do futebol que ganham milhões e mais milhões para pouco contribuírem para melhoria de sua própria terra.
A indústria cultural não só privatizou as mais variadas formas de expressão artísticas no século XX, como falsificou quase tudo que poderíamos desejar. Estamos sendo enganados por nós mesmos. O Sonho Americano é uma mentira tão assassina quanto a frase “O trabalho liberta” escrita nos portões de Auschwitz. Mas o que podemos fazer se mesmo o comunismo, que para mim foi a alternativa mais bem elaborada e exaustivamente explorada contra tal sistema, falhou e ruiu como os tijolos do emblemático Muro de Berlim?
Na resolução desta questão as pessoas que realmente estão interessadas em mudar o mundo devem estra dedicadas daqui para frente. Não faz sentido falarmos em políticas e tecnologias verdes se no fundo estivermos nos referindo apenas aos conceitos de políticas e tecnologias verdes. Não adianta falarmos em reestruturação das relações humanas, se no fundo estivermos falando na reestruturação dos conceitos relacionados às relações humanas. Existem muitos números, gráficos e cifras, mas onde estão as pessoas? Será que vivemos uma síndrome de torna os indivíduos invisíveis?
Coloquialmente falamos que há um Sonho Americano e capitalista por detrás de tudo. Isto equivale dizer que estamos dormindo e necessitamos acordar para mudar esta realidade.
Dentro de um mesmo povo, por mais características em comuns seus membros possuam, sempre existem diferenças suficientes que permitem que várias coisas sejam superadas, mesmo havendo muita dor e sofrimento. Porém se atentarmos para apenas um indivíduo em sua particularidade, iremos facilmente perceber que seu limite é muito menor. Visto que somos sobreviventes de um processo sistemático de esvaziamento psicológico, estamos ainda mais fragilizados. É neste momento que surge a importância histórica de Mohamed Bouazizi.
Mohammed Bouazizi não foi um filósofo, nem político ou mesmo algum tipo de radical fervoroso. Ele era apenas mais um indivíduo esvaziado, um cidadão violentado, um jovem que como eu nasceu num mundo cheio de problemas, mas que se diz “já resolvido”. Ele era um “simples” vendedor de frutas na pequena cidade de Sidi Bouzid, no interior da Tunísia. Um homem dotado de razões e sentimentos únicos à sua pessoa, porém considerado descartável, substituível e desnecessário pela lógica dominadora do mundo e pelo governo de seu país. Mohammed Bouazizi não queria mudar o mundo nem defendia qualquer tipo projeto mirabolante revolucionário. Ele queria apenas o direito de vender suas frutas no seu carrinho para trazer um pouco de dinheiro para se autossustentar e sustentar sua família dentro da legalidade e dignidade mínimas e comuns para qualquer Estado e seus cidadãos.
Como tantos de nós, e cada vez mais em tempos de crise econômica mundial, Bouazizi não conseguiu arranjar um emprego formal. Devido a isso teve que partir para a informalidade justamente por ser um bom e justo homem, caso não fosse certamente teria partido para a ilegalidade, visto que traficar e roubar são “negócios” muito mais lucrativos do que vender frutas e legumes na rua. Ele apenas queria ajudar sua família e evitar que ele mesmo morresse de fome.
As autoridades da cidade confiscaram o carrinho de frutas de Bouazizi alegando ser ilegal a venda ambulante na Tunísia. Ainda dentro da legalidade, Mohamed foi à sede do governo regional para tentar se defender e recebeu um sonoro “não”.
Autoridades disseram que Bouazizi não tinha permissão para vender nas ruas, porém de acordo com o ministro do trabalho daquele país nenhuma permissão é necessária para vender com um carrinho.
Visto que dentro desta lógica ele não teria a permissão para simplesmente não morrer de fome, ele deixou uma mensagem para sua mãe no Facebook pedindo perdão por ter perdido a esperança em tudo. Comprou diluente altamente inflamável e foi até a frente do prédio do governo local.[4]
 Ao invés de garantir seus direitos, o Estado esvaziou as últimas gotas de sua racionalidade. Tomaram-lhe suas frutas, destruíram sua tenda, humilharam-lhe em praça pública. Para Bouazizi, nada restou além de sua revolta. Num ato de total desespero frente à opressão que o sistema no qual estava submetido a viver lhe aplicava, Mohammed ateou fogo em seu próprio corpo.
Sua autoimolação no dia 17 de dezembro de 2010 fatalmente lhe conduziu à morte, porém as chamas que dominaram seu corpo tiveram o poder de ocupar o espaço ocioso deixado pelo sistema no interior de boa parte de seus compatriotas, que foram as ruas protestar e se impor contra a lógica dominadora e mesmo sem representar partidos ou sindicatos, conseguiram fazer com que o então presidente da Tunísia Ben Ali renunciasse depois de vinte e três anos no poder.
Por não ser nenhum defensor de causa, não julgo que Mohammed Bouazizi deva ser considerado um mártir. Ele foi apenas um indignado que assim como eu e mais 99% da população sofre diariamente com algum tipo de violência ou injustiça oriundas de um sistema que deveria evitar tudo isso, mas não o faz. Justamente por ser a imolação de “apenas mais um” e não “do mártir salvador” é que o sacrifício de Bouazizi ganhou a força necessária para mudar a realidade de seu país e a motivar os movimentos revolucionários em tantos outros. Neste sentido, cada indivíduo indignado que lotou as praças e os prédios públicos na Primavera Árabe ou nos diversos Occupy e marchas espalhados pelo mundo encarnou seu espírito, revolta e dor. O calor das chamas imanentes de seu corpo contaminou o mundo com uma sincronia cosmopolita febril.
            Mesmo que só alguns tenham percebido, é por isso que somos todos, ou pelo menos 99%, Mohammed Bouazizi.


OS FILHOS DA COCA-COLA

Vladimir Safatle diz que sua geração, dotada de homens e mulheres que hoje passam dos quarenta anos de vida, foi a geração que quebrou o mundo. O que então resta para os filhos desta geração?
Lembro que na idade de vocês, dezoito, dezenove, vinte anos, costumava ouvir que não havia mais luta política a ser feita, que o mundo estava globalizado e o que valia era a eficácia, a capacidade  de assumir riscos, de ser criativo, inovador, de preferência em uma agência de publicidade ou no departamento de marketing de uma grande empresa. Se assumíssemos essa nova realidade, entraríamos em um futuro radiante onde só haveria vencedores e raves. Onde os que ficassem para trás, no fundo, teriam um problema moral, pois não haviam tido a coragem de assumir riscos, a necessidade de inovação e coisas do tipo. (Safatle, 2012, p.53)

            Parece-me que os riscos assumidos por essa geração que hoje dominam os mercados financeiros e as lideranças políticas mundiais, foram demasiadamente altos. Poucos enriqueceram muito e muitos se afundaram em dividas ou na miséria absoluta. Por fim, entramos em uma crise econômica que não sabemos como sair, ou nas palavras do autor, esta geração “simplesmente conseguiu quebrar o mundo”.
            Após a derrota do totalitarismo na segunda guerra mundial, a queda de muitas ditaduras e o fim do socialismo já há aproximadamente vinte anos atrás, o mundo parecia estar caminhando para o lugar certo. Talvez por isso os jovens daquela época caíram no erro de achar que não era mais necessária a participação popular nas grandes decisões do planeta. Tal geração se entregou à corrupção, à especulação imobiliária, à indústria cultural, aos abusos financeiros ao endividamento desenfreado, ao conceito de “viver bem” e acabaram por se esquecer de que não há vida boa sem calor humano, justiça, sustentabilidade ambiental e equidade social. Safatle se pergunta: “Como acreditamos durante tanto tempo que nenhum acontecimento real pudesse ocorrer?(...) como se acreditou durante tanto tempo que a roda da história estava parada(...)”(Safatle, 2012, p.54). Esta foi a geração que criou o maior de todos os movimentos totalitários, o movimento totalitário do dinheiro. Foram os homens que desacreditaram no poder das multidões entregando aos “místicos” princípios do liberalismo econômico o futuro do planeta e com isso colocaram em funcionamento uma das mais assassinas formas de poder da história da humanidade.
Eu  sou  um  filho  desta  geração.  Um  jovem  que  como   Mohammed Bouazizi e tantos outros desfrutamos de pouco mais ou pouco menos de vinte anos de idade e possuímos histórias de vida semelhantes. Passamos a infância em creches e escolas desacolhedoras. Ainda muito jovens tivemos nossa imagem fantasiosa do mundo manchada pelos ataques terroristas de onze de setembro. Assistimos vários colegas perderem suas vidas para as drogas, para o crime, ou para insanidade total que os levou a invadir a escola armados e prontos para massacres. Nossos pais perderem empregos de mais de trinta anos devido à súbita falência de suas empresas. Fomos tomados por um falsificado “espírito nacionalista libertador” que nos colocou em guerras contra inimigos que de fato nem existiam. Por fim, nos formamos na faculdade e nos deparamos com uma porção de promessas não cumpridas e com um mundo poluído e falido de herança.
Não acreditamos mais nas instituições tradicionais. A escola nos ensinou tudo errado, pois estava perfeitamente submetida à logica dominadora do sistema supracitado. A mídia não presta e mente para defender os interesses dos anunciantes. A igreja secularizou-se, matou deus, se converteu ao capitalismo e virou um mercadão da fé. A família se tornou uma utopia baseada nos alegres comerciais de margarina. Sindicatos e partidos políticos só defendem seus interesses privados. O clima e a economia se tornaram caóticos, poluídos e imprevisíveis. Estado Moderno se tornou uma instituição privada sob a tutela de políticos corruptos distantes do povo[5]:
(...)não dá mais para confiar em partidos, sindicatos, estruturas governamentais que podem ter suas funções em certos momentos, mas não têm nenhuma capacidade de ressoar a verdadeira necessidade de rupturas.(...) A época em que nos mobilizávamos tendo em vista a estrutura partidária acabou, acabou radicalmente.(...) Podemos não saber o que vai acontecer no futuro, que tipo de nova organização política aparecerá, mas sabemos muito bem onde acontecimentos não ocorrerão. Com certeza não nas dinâmicas partidárias. (Safatle, 2012. P.55)

Se a geração anterior realmente acreditava que o mundo caminhava para o lugar certo e os mais jovens já sabem que isso é uma grande mentira, nós somos os filhos do meio da história. Somos os mais afetados, somos os esvaziados, somos os indignados. Temos o dever de protestar e ocupar o que foi necessário. Temos o direito que querer mudar o mundo. 


QUANDO A OCUPAÇÃO ACABAR

Tudo começou como numa brincadeira de alguns amigos hackers e nerds.
Alguns analistas tentam minimizar a importância da autoimolação de Mohamed Bouazizi afirmando que ele foi apenas a chama que botou fogo no barriu de pólvora que eram os vários países do norte africano onde explodiu a Primavera Árabe. Eu concordo parcialmente, pois julgo que a verdadeira explosão revolucionaria ainda está longe acontecer. Para mim, Mohamed foi a chama que acendeu um longo pavio chamado de web 2.0 que certamente se desenvolverá ainda mais ao longo do século. Para deixar bem clara minha intenção, julgo que mais do que uma simples tecnologia da comunicação, a web 2.0 dotada de suas redes sociais, blogs e wiks, representa uma quebra paradigmática na história da humanidade, pois dá ao indivíduo comum novamente a possibilidade de se expressar autonomamente e se impor às mais diversas formas de opressão numa velocidade avassaladora e com progresso em redes gigantesco. Sob este foco gostaria de me dedicar brevemente à análise das opiniões de alguns filósofos e cientistas sociais sobre os movimentos Occupy que tomaram o mundo no ano de 2011.
É de Henrique Soares Carneiro o termo sincronia cosmopolita febril que uso como título deste trabalho. Para ele os movimentos Occupy conservam uma série de semelhanças e por isso merecem serem observados como uma força cosmopolita. São movimentos quase espontâneos com uma forma de ação baseadas em ocupação de praças, uso de redes de comunicação alternativas e articulações políticas que recusam o espaço institucional tradicional. (Carneiro, 2012, p.8)
 Conforme o país, ou ainda o grupo organizador, cada Occupy ocorre de uma forma diferente, porém sempre detém como pano de fundo a indignação oriunda da percepção do esvaziamento psicológico supracitado. Por exemplo: Nos países africanos tomou a forma de revolução democrática; no Chile em protestos estudantis por educação pública e gratuita de qualidade; na Grécia e na Espanha como forma de expressar o descontentamento como a crise econômica e principalmente contra as meditas que seus governos adotam para combatê-la; Nos Estados Unidos a ocupação de Wall Street surge como crítica a lógica do mercado financeiro que não é capaz de promover igualdade social, enriquecendo poucos e empobrecendo muitos; no Brasil tomou a forma de luta contra a corrupção que contamina todos os setores de nossa política. Existe também uma grande quantidade de marchas e protestos pontuais que defendem interesses específicos, como a Marcha da Maconha que tenta legalizar o uso, produção e comércio desta droga, e a Marcha das Vadias que busca uma nova representação feminista e feminina contra o preconceito e os abusos contra as mulheres que são reduzidas pela sociedade e pela mídia a meros objetos sexuais submersíveis aos desejos masculinos; além de movimentos de defesa étnica, ambiental, direitos humanos, direitos dos animais, liberdade de expressão, etc.
Houve algo de dionisíaco nos acontecimentos de 2011: uma onda de catarse política protagonizada especialmente pela nova geração, que sentiu esse processo como um despertador coletivo propagado não só pela mídia tradicional (...), mas por uma difusão nova nas redes sociais da internet (...), tomando forma de disseminação viral, um boca a boca eletrônico com mensagens replicadas para milhares de outros emissores. (Carneiro, 2012, p.9)

            Antes de qualquer coisa, os Occupy devem ser entendidos como o grito dos oprimidos; como a voz dos filhos do meio arranjando seu jeito de ser ouvida. Estamos falando de um movimento que está acontecendo agora, por isso talvez as críticas disponíveis ainda não sejam suficientemente esclarecedoras para sabermos a real magnitude disso tudo. O que posso afirmar é que ao contrário do que afirmou Immanuel Wallerstein[6], isto não tem nada a ver com políticas de esquerda. 2011 não foi um ano bom para ninguém que defenda a política opressora tradicional, pois foi quando alguns perceberam que se tratava da luta dos 99% contra 1%, usaram as redes e foram as ruas. Julgo que os Occupy são uma forma de aversão a toda forma de opressão, seja ela econômica, política, ou cultural. Estamos interessados em propostas totalmente novas. A resposta mais fiel ao espirito Occupy que um manifestante pode dar à pergunta “-Qual é a proposta política de vocês?”, julgo que é: “-Não temos nenhuma proposta, mas sabemos que não estamos satisfeitos com as propostas atuais. Queremos algo novo. Chega de remendos!”.
            Aliás, nada é mais injusto frente aos movimentos Occupy do que tentar entende-los a partir de uma série de perguntas do tipo: qual a proposta, o que vocês querem, por que vocês estão aqui, etc. Estas perguntas só são esclarecedoras dentro da lógica opressora tradicional, pois tudo que buscam é reduzir a força revolucionárias dos movimentos em uma série de conceitos facilmente entendíveis, distorcidos e manipuláveis. Isso certamente deu um nó na cabeça dos mais tradicionais, não só dos opressores, mas também dos ativistas e estudiosos revolucionários. O fato é que muito além da causa defendida, todo Occupy deve ser entendido como uma luta contra o sistema. 
            David Harvey[7] ressalta a união dos corpos no espaço público como a grande marca destes movimentos. Não só ele mais a maioria dos analistas que li, acreditam que o retorno das discussões políticas às praças públicas tiveram muito mais importância do que os fluxos de comunicação pela internet. Neste ponto julgo que estão todos equivocados.
            A indignação contra o sistema e sua lógica opressora não é de hoje. Porém estávamos condicionados a acreditar que se tratava de uma indignação solitária e pontual. A comunicação em redes, as pesquisas online e a propagação da informação sem comprometimento através de blogs e wiks nos colocou em contato com milhões de indignados de todo o mundo, algo completamente impensável dentro da lógica da antiga Indústria Cultural. Em pouco tempo a internet fez ver que éramos 99% de oprimidos lutando contra apenas 1% de opressores.
O primeiro e fundamental passo em direção a uma democracia real foi dado na internet. As manifestações em praça públicas foram apenas um movimente secundário. Não há nada de novo na utilização de ocupações de espaços públicos e privados como forma de protesto, vimos muitas vezes o MST ocupar todo tipo de lugar, bem como vimos que o uso da violência é extremamente eficaz contra este tipo de protesto. O calor humano e as aglomerações podem ser facilmente dissipados com o uso de bombas e tiros: a guerra civil que a Síria vive atualmente reflete exatamente o que estou dizendo. Porém como o mundo virtual é um ambiente criado pelo ser humano e que pode ser manipulado e reconfigurado por qualquer hacker, todo tipo de bloqueio impostos contra manifestações online sempre pode ser facilmente superado. Julgo que os Occupy devem ficar marcados na história não por suas semelhanças com velhas revoluções, mas sim por sua novidade fundamental que está baseada no uso da web 2.0 em favor dos oprimidos.
Quando a ocupação acaba, a revolução continua e se intensifica nos ambientes públicos e democráticos do mundo virtual. Para mim, esta é a quebra paradigmática na forma de se fazer revoluções que será lembrada daqui muitos anos quando se falar sobre os Occupy.

O OCUPADOR E O PRISIONEIRO DA CAVERNA

Giovani Alves[8] diz que os Occupy necessitam de uma mínima plataforma política para lutar efetivamente contra as injustiças sociais. João Alexandre Peschanski[9] acredita que a indignação contra as mais variadas formas de desigualdade social são claras, mas as ideias de igualitarismo dos movimentos ainda são muito vagas. Tariq Ali[10] questiona sobre contra o quê se está lutando. Para Slavoj Zizek[11] não basta criticar o sistema, os Occupy necessitam apresentar uma alternativa para poderem transformar o mundo. Concordo com todas estas críticas, mas acho que são injustas frente a real natureza dos movimentos de protesto que tomaram as ruas em 2011.
A maioria dos analistas está tentando entender os Occupy como algo em si e por isso se precipitam em suas análises. Por tudo que foi descrito neste trabalho, julgo que estes foram os primeiros e necessários passos para tirar toda uma geração da inércia política. Visto isso, outros passos nos são agora necessários para acelerar o processo que pode nos levar a tão sonhada emancipação prometida por Kant na era do Esclarecimento, bem como fará do mundo um lugar mais justo e igual para que todos possam viver e desfrutar de nossas diferenças.
Não acho que a falta de propostas seja um problema agora. Vivemos o momento de simplesmente nos unirmos e compartilharmos vivências para protestarmos contra toda forma de violência e ocultação da verdade. Neste momento é normal a falta de clareza nos discurso dos manifestantes.
O ocupador é como o prisioneiro da caverna de Platão que se liberta das correntes e deslumbra um mundo muito além das sombras refletidas nas paredes. Porém ao voltar para a caverna não consegue se expressar para os que continuam acorrentados, afinal aprenderam durante toda a vida que tudo que existe são as sombras e que não se necessita nada mais para viver. Da mesma forma que o prisioneiro foi condenado por seus irmãos da caverna, muitos hoje condenam os ocupadores sob acusações de românticos, radicais, sonhadores, vagabundos e até de loucos; mas o fato é que são eles os mais esclarecidos, porém estão incapacitados de transmitir tal esclarecimento devido a falta recursos intelectuais de todas as partes.
Ao invés de nos determos à análise ou mesmo à critica destes movimentos, intelectuais de todas as áreas devem estar unidos e concentrados em busca à formulação de propostas realmente novas, que supram as necessidades dos indignados e promovam igualdade social e respeito aos diferentes. Normalmente este tipo de trabalho acadêmico interdisciplinar de alto nível é difícil de ser elaborado, mas talvez a própria organização horizontal que respeita as especialidades de cada indivíduo membro aplicada nos movimentos Occupy seja o melhor caminho a ser tomado.
O Primeiro e mais importante passo foi dado nas redes sociais, Depois foi à vez de ocuparmos as ruas e praças. Agora temos o dever de gerarmos subsídios intelectuais para suprirmos o vazio que fica após as ocupações. Caso contrário, corremos o risco de deixarmos a porta aberta para antigos inimigos, como o totalitarismo, o fundamentalismo, o extremismo religioso, etc.[12]

          CONCLUSÃO

Sem as redes sociais a autoimolação de Mohamed Bouazizi seria apenas mais um fato noticiado por trinta segundos pela mídia local. Porém hoje temos máquinas poderosas que permitem filmar e nos comunicarmos instantaneamente com milhões de pessoas, devido a isso não existem mais fatos isolados, o que acontece no interior de um pequeno país logo é transmitido para o mundo todo. A internet acabou com algumas de nossas ilusões que eram chaves para a manutenção da lógica dominadora imposta por governos, políticos de todos os lados, pela Indústria Cultural e pelo poder “superior” da economia. Isso nos levou novas necessidades de socialização global, uma espécie de globalização dos direitos, algo ainda muito obscuro que mais parece uma sincronia cosmopolita febril, mas que já colhe seus bons e maus frutos. Dentro deste novo paradigma ainda não temos clareza sobre o possa acontecer, mas afirmo que os Occupy não são a revolução em si, mas um passo inicial contra toda forma de violência, afinal o terror continua, porém se esconde atrás de uma série de mentiras que os indignados só agora conseguem enxergar e comunicar isso para o mundo através da web 2.0.

REFERÊNCIAS

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ADORNO, Theodor W. Dialética negativa.  Rio de Janeiro : Zahar, c2009.  351 p.


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CARNEIRO, Henrique Soares. Rebeliões e ocupações de 2011. p.7-14 in Occupy / [David Harvey ... et al.] ; [tradução João Alexandre Peschanski ... et al.]. – São Paulo: Boitempo: Carta Maior, 2012.


DAVIS, Mike. Chega de chiclete. p.39-45 in Occupy / [David Harvey ... et al.] ; [tradução João Alexandre Peschanski ... et al.]. – São Paulo: Boitempo: Carta Maior, 2012.


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HARVEY, David. Os rebeldes da rua: o Partido de Wall Street encontra sua nêmesis. p.57-65 in Occupy / [David Harvey ... et al.] ; [tradução João Alexandre Peschanski ... et al.]. – São Paulo: Boitempo: Carta Maior, 2012.


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MOREIRA, Alberto da Silva. Adorno : educação e religião.  Goiânia: UCG, 2008.  120 p.


PESCHAMSKI, João Alexandre. Os “ocupas” e a desigualdade econômica. p.27-30 in Occupy / [David Harvey ... et al.] ; [tradução João Alexandre Peschanski ... et al.]. – São Paulo: Boitempo: Carta Maior, 2012.


SADER, Emir. Crise capitalista e novo cenário no Oriente Médio. P.83-86 in Occupy / [David Harvey ... et al.] ; [tradução João Alexandre Peschanski ... et al.]. – São Paulo: Boitempo: Carta Maior, 2012.


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WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Indústria cultural. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ind%C3%BAstria_cultural Acessado em: 03 de Junho de 2012.


WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Mohamed Bouazizi. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Mohamed_Bouazizi Acessado em: 21 de Junho de 2012.


YOUTUBE, Broadcast Yourself. Livro Aberto 11/06/12 - com Gustavo Oliveira de Lima Pereira (Parte 1) Postado por: diariodocampus, em 15 de Junho de 2012. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=L7aMFz5CWVc&  Acessado em: 20 de Junho 2012.


ZIZEK, Slavoj. O violento silêncio de um novo começo. p.15-26 in Occupy / [David Harvey ... et al.] ; [tradução João Alexandre Peschanski ... et al.]. – São Paulo: Boitempo: Carta Maior, 2012.



Entregue em 25/06/2012 para publicação na revista "Opinião Filosófica"


[1] Mestrando em Filosofia na área de Ética e Filosofia política pelo PPGFil da PUCRS sob a orientação de Dr.Agemir Bavaresco; bolsista do CNPq; Bacharel e Licenciado em Filosofia pela PUCRS e professor de Filosofia da Secretaria Estadual de Educação do Estado do Rio Grande do Sul.  fabiogt@zipmail.com.br - http://www.filosofiahoje.com/
[2] Como Visto em:  Livro Aberto 11/06/12 - com Gustavo Oliveira de Lima Pereira (Parte 1) disponível em http://www.youtube.com/watch?v=L7aMFz5CWVc&  acessado em 20/06/2012.
[3] apud. Zamora in Moreira, 2008.
[4]Este e os três parágrafos anteriores são paráfrases feitas sobre o artigo sobre Mohamed Bouazizi disponível em  http://pt.wikipedia.org/wiki/Mohamed_Bouazizi acessado em 21 de Junho de 2012.
[5] Talvez nem todas estas observações sejam fatídicas, mas refletem meus sentimentos e os sentimentos de muitos humanos de minha geração.
[6]  No artigo: A esquerda mundial após 2011 p.73-76
[7]  No artigo: Os rebeldes na rua: o Partido de Wall Street encontra sua nêmesis. P.57-64
[8] No artigo: Ocupar Wall Street... e depois? P.31-38
[9] No artigo: Os “ocupas” e a desigualdade econômica. P.27-30
[10] No artigo: O espírito da época. P. 65-72
[11] No artigo: O violento silêncio de um novo começo. P.15-26
[12] Como muito bem avaliado e expresso por Emir Sader no artigo: Crise capitalista e novo cenário no Oriente médio. sobre a tentativa de golpes políticos destes grupos em países que se envolveram na Primavera Árabe. 
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