quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Viver Bem ou Viver Moral? (Living Well or Living Moral?)

capitalism isn't working misterio capitalista

Título: Viver Bem ou Viver Moral?

Autor: FABIO GOULART

PORTO ALEGRE, 2011-2013
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ABSTRACT

In this paper I focused the analysis and linear text author Thomas Nagel (book: theview from nowhere, Chapter: Living Well and Living Morals), I chose not to seekexternal authors, concentrating on extracting the central meaning of what was beingargued. Based on this, which analyzed the proposal of the author to the tension between our individual wills and an objective which will be the bases of most moral theories and ethical. In simpler words: To what extent my particular desires come into conflict with the ethical impersonal?

                     Keywords: Live well, live morally, ethics.

RESUMO

Neste trabalho me concentrei a uma análise bem linear do texto do autor Thomas Nagel (livro: Visão a partir de lugar nenhum, capítulo: Viver Bem e Viver Moral), preferi não buscar autores externos, me concentrando em extrair o sentido central do que estava sendo argumentado. Com base nisso, analisei qual a proposta do autor para a tensão existente entre nossas vontades particulares e uma vontade objetiva onde se fundamentam as bases da maioria das teorias morais e éticas. Em palavras mais simples: Até que ponto meus desejos particulares entram em confronto com os fundamentos éticos impessoais?

                      Palavras chave: Viver bem, viver moral, ética.

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INTRODUÇÃO


            Alguma vez você já se sentiu mal por ter gastado muito dinheiro comprando alguma espécie de futilidade? Alguma vez você já colocou em duvida a realização de algum sonho em detrimento as necessidades básicas de algum desconhecido? Será que para satisfazermos nossas vontades pessoais acabamos por agir de maneira imoral? Estas são apenas algumas perguntas que movem Nagel neste capítulo. O texto é de certa forma a culminância de tudo que foi dito nos capítulos anteriores, digo isso, pois é aqui que sua “visão a partir de lugar nenhum” poderá entrar ao nível de nossos problemas do dia-a-dia.
              


 1. A QUESTÃO DE WILLIAMS

            Uma variedade de elementos motivacionais entre as fontes da moral reflete num sistema de divisão do Eu. Não basta aceitar este fato para resolver essas divisões. Ainda não há base para uma moral substantiva. A discussão sobre a moral ocupou-se dos fundamentos e dos contrastes entre direitos e interesses que os outros podem impingir-se a nós. Para o autor as exigências morais têm uma base objetiva, mas isso não significa que são radicalmente impessoais. A objetividade requer que reconheçamos elementos substanciais de valor pessoal no raciocínio prático e moral.
            Em qualquer moral objetiva o elemento impessoal é importante também. Neste capitulo o autor busca investigar a tensão resultante dos pontos de vista objetivos e subjetivos, afinal, as exigências morais impessoais são dirigidas a indivíduos que tem suas próprias vidas para levar.
            O problema resultante desta tensão não é puramente de teoria filosófica, é também um problema da vida real, isso é, pode ser testado pela experiência, independente de uma moral impessoal. O autor cita que as pessoas de países desenvolvidos gastam com almoços, roupas de marca e outras futilidades muito mais do que a renda familiar anual de alguns países subdesenvolvidos (Nagel, p. 316). Isto parece absurdo quando colocamos como questão “o problema da fome no mundo” e evidencia que uma moral fortemente impessoal com requisitos de significativos de imparcialidade, pode representar uma séria ameaça ao tipo de vida pessoal que muitos de nós consideramos desejável.
               Além das morais puramente impessoais, este problema também se aplica as morais utilitaristas e consequencialista. Sempre que uma moral buscar fundamentos em razões neutras e sólidas enfrentará este problema. O autor deixa a questão do “grau requerido de imparcialidade em aberto” (Nagel, p. 317). Por mais que meus valores pessoais possam não rivalizar com os valores pessoais de outros indivíduos, acabarão por rivalizar com os valores de uma moral impessoal. Posso não me preocupar com o fato de minha refeição custar o mesmo que outra pessoa necessite para comprar uma televisão nova ou aparelho de celular mais sofisticado, mas não posso estar indiferente ao fato que este mesmo dinheiro poderia acabar com a fome de alguém ou de salva-la de uma doença letal.  Com isso, esta questão nos leva a uma “culpa potencial”.
            Segundo Mill (apud. Nagel), são poucas as pessoas que são “bem feitores públicos” na maior parte do tempo, geralmente a maioria das pessoas se ocupam a atender apenas a utilidade privada e de algumas poucas pessoas que fazem parte de suas vidas (Nagel, p. 317). Embora eu julgue que esta visão de Mill é fatídica, ela não pode servir como consolo ou justificativa moral, ou seja, a visão de Nagel se aproxima da visão de Susan Wolf(Nagel, p. 318).
            Williams contesta as “demandas da moral impessoal a partir do ponto de vista do agente individual ao qual se dirigem essas demandas.” Suas objeções se lançam não somente as visões utilitaristas e consequencialista como também sobre as morais kantianas. Nagel julga que nem sempre é claro se o argumento de Willians diz respeito ao conteúdo da moral ou a sua autoridade, mas sua intenção é examinar estas duas perspectivas.
            O problema vai muito além do fato de que em uma moral impessoal muitas vezes nos joga conta nos mesmos e nos leva a fazer coisas contrarias a nossa vontade. Este tipo moral “requer de nós não apenas certas formas de conduta, mas também os motivos necessários para produzir essa conduta” (Nagel, p. 319). “Se é necessário que façamos certas coisas, então é necessário que sejamos os tipos de pessoas que as farão”. Segundo Williams isso requer um conjunto de motivos e prioridades que entre si conflitam-se, acabando por entrar em incompatibilidade com outros motivos necessários para levar uma boa vida. Williams julga que as morais individuais acabam por afastar os indivíduos de muitos de seus projetos pessoais (ficar rico, ter uma casa na praia, comprar um Ferrari, ter um Ipad, etc) e que “O custo de afastar-nos de nossos projetos e de nossa vida é alto demais” (Nagel, p.319).                                   
            Thomas Nagel usa as expressões “boa vida e vida boa” mesmo sendo que Willans use a expressão “viver bem”. Isso porque, Nagel julga que “viver bem” realmente é uma expressão bem alinhada com o pensamento de Willians, mas como o que lhe interessa é a oposição que se dá entre as exigências da moral impessoal e a perspectiva pessoal do agente ao qual elas se dirigem, optou pela expressão “boa vida”.
            Dificilmente um utilitarista vai se abalar com o argumento de Willans. Em primeiro lugar porque julga que seu sistema é perfeitamente capaz de levar em conta os projetos individuais e compromissos pessoais frente o que é bom para os outros e para a totalidade dos indivíduos. Em segundo lugar o utilitarismo não coloca nenhum obstáculo à integridade da vida de ninguém, desde que não escolham projetos que entrem em conflito com o bem-estar geral. Em terceiro lugar o utilitarismo é uma teoria sobre a maneira correta de viver e não pode ser refutado com base em afirmações independentes acerca de como viver bem.
            Os que são adeptos de uma moral kantiana certamente concordarão com esta terceira réplica utilitarista, mas a adaptariam a sua moral. Nesta adaptação a réplica poderá assumir duas formas. Se não admitir o conflito entre viver moral e vida boa, nos dirá que a moral é o que nos dizer o que devemos fazer, acabando por revelar aspectos essenciais da boa vida, isto porque um kantiano que segue esta linha de raciocínio não acredita que não pode haver vida boa que não seja vida moral, assim sendo, não fazendo o que a moral diz que devemos fazer, é “ipso facto” viver mal. Mesmo que o viver moral nos leve a sacrifícios, seria pior ainda não segui-lo. Nesta visão a melhor vida é a vida moral e sendo assim não há conflito entre viver bem e viver moral.
            Por outro lado, se o Kantiano admitir o confronto entre a boa vida e a vida moral, isso significa que ele admite que vida boa e vida moral não sejam as mesmas coisas. Porém irá afirmar que uma teoria moral é a que trata da maneira correta de viver, não da maneira boa, assim sendo não pode ser refutada pelo confronto entre viver bem e viver moral. Ao afirmar isso, fica presumido, falsamente para Nagel, que a moral nos diz como viver da melhor maneira que pudermos, mas ao fazer isso acaba por “considerar os interesses pessoais do agente somente como um fator entre os outros”.
            Para explorar melhor esta controvérsia, Nagel considera que no geral as pessoas conseguem fazer uma distinção rudimentar entre viver bem e viver moral, e que viver moral significa levar uma vida extremamente comprometida com os requisitos morais (Nagel, p.321).
A compreensão deste confronto pode estar aberta a várias posições diferentes que podem rivalizar entre si. Basicamente isso ocorre devido à maneira de se encarar e responder três perguntas chaves:
            1) Em que medida são logicamente independentes as ideias de boa vida e vida moral?
            2) Se não são independentes, qual delas tem prioridade em determinar o conteúdo da outra?
            3) Na medida em que sejam independentes, qual delas tem prioridade em determinar o que é uma vida razoavelmente racional. Qual se deve sacrificar em busca de uma vida racional? Vida boa ou vida moral?
            Nagel está buscando em especial entender a suposição de como uma determinada teoria moral poderá dizer para as pessoas como levarem um vida moral que ao mesmo tempo não seja uma vida ruim. E que com isso está aberto um espaço para a crítica da vida moral, pois a pessoa necessita de “algo a mais” do que a moral para ter uma vida boa.


 2. ANTECEDENTES

            O problema da rebeldia individual frente às demandas da moral impessoal é um velho conhecido da filosofia. Ao longo da história vários filósofos, de várias correntes de filosofia moral diferentes tentaram harmonizar, da sua maneira, este confronto. Julgo até que a as discussões morais e éticas só existem com este fim.
            A República de Platão tenta mostrar que a virtude moral constitui parte indispensável do bem de cada pessoa.
            Para Kant tal harmonia não pode ser experimentada, mas deve ser postulada. Assim, mesmo que talvez não nesta vida corpórea, podemos esperar que o bem mais elevado se realize e a felicidade tenha perfeita correlação com o mérito de ser feliz, pelo menos na vida eterna da alma.
            Nietzsche rejeita a moral impessoal em detrimento a ao viver bem individual. Claro que em Nietzsche o ideal de viver bem tem um sentido muito mais amplo do que apenas realizar as próprias vontades. (Nagel, p.323)
            Bentham aparece como um defensor da moral impessoal, ele nega qualquer conexão entre o que é correto um indivíduo fazer e o que é bom para ele. Para Bentham cada pessoa está interessada em apenas buscar seu próprio prazer e evitar sua dor, sendo a única maneira de fazê-las agir de acordo com o princípio de utilidade é fazer com o que lhe traz felicidade sirva também ao bem-estar geral. Assim sendo tratasse de uma questão contingente.
            Provavelmente a maioria dos utilitaristas contemporâneos não concordaria inteiramente com Bentham. Provavelmente diriam que o princípio de utilidade não diz apenas o que é certo fazer, mas também o porquê temos razões decisivas para fazer. Por que fazer? Simplesmente porque é correto fazer, mesmo que entre em conflito com a felicidade de cada indivíduo. Também teria que ser analisado se eles aceitam ou rejeitam a demanda de conciliação. Por exemplo, Sidgwick duvidava da possibilidade desta harmonia e devido a isso, a moral ficava em uma posição duvidosa.
            Para os kantianos contemporâneos a questão é se na falta de esperança da vida eterna da alma ainda conseguiriam sustentar sua posição frente o problema de Willams. Tanto utilitaristas quanto kantianos se quisessem defender a ideia de conciliação entre a moral impessoal e a boa vida, teriam provavelmente de recorrer ao bem de um eu superior que se expressa por meio da moral impessoal. Para Nagel essa é também a forma geral da solução oferecida por Platão (Nagel, p.324).
            A ideia geral seria que o reconhecimento das demandas morais impessoais carregam valores universais tão importantes que eclipsam outros bens e males que podem nos ocorrer. Independente da visão que se possa ter, geralmente se admite que existam outros bens e males além da vida moral. Devido a diversos motivos duas pessoas igualmente morais podem não gozar do mesmo bem (ele da o ex. onde uma delas tem artrite), mas segundo a visão conciliacionista estes valores jamais poderão fazer com que uma vida imoral seja melhor que um vida moral (Nagel, p.325). Mesmo que a demanda moral possa levar o indivíduo a uma morte prematura, ainda sim seria melhor uma vida moral curta que uma longa vida imoral.
            Nagel suspeita que não seja possível esta conciliação e que ela não é necessária para defender a moral. A moral não desmorona se o bem superior não poder ser atingido. Ele concorda com Willams em que uma teoria moral deve dizer não somente o que moralmente devemos fazer, mas também como levar uma boa vida, mas não crê que se possa rejeitar uma teoria moral com base na alagação que de que quem segue as demandas de uma moral impessoal pode, sobre certos aspectos, ter uma vida pior do que quem não segue estas demandas. Isto porque provavelmente Willams aparentemente coloca mais peso ético no viver bem, enquanto Nagel no fazer o que é correto. É importante salientar que estes dois aspectos parecem ser muito significativos para qualquer teoria moral e que provavelmente não se possa eliminar o confronto entre eles. Assim sendo, outro aspecto que surge como crucial para uma teoria moral é o modo de como ela “resolve” este conflito.


 3. CINCO ALTERNATIVAS

    


            Para dar um enfoque mais sistemático à questão, Nagel apresenta neste capítulo cinco alternativas para questão referente ao viver bem e o viver moral;
            (1) A vida moral é definida em termos da boa vida: É mais ou menos a visão de Aristóteles. Não significa que as duas idéias sejam equivalentes, mas que o conteúdo da moral se define em termos das condições necessárias para uma boa vida, pois esta depende de certos aspectos da conduta do individuo, como o bom desempenho de seu papel social e o controle de suas emoções. Para Nagel (1) está errada, pois os requisitos morais tem sua origem nas demandas das outras pessoas. A força moral não pode se limitar a ajustar-se a boa vida de cada individuo.
            (2) A boa vida é definida em termos da vida moral: É a posição de Platão. Admite que possa haver mais coisas além da vida moral para que se possa ter vida boa, mas a prioridade absoluta é da moral. Assim sendo, uma vida moral pode ser ruim, mas sempre será melhor que uma vida imoral. Para Nagel (2) está errada, pois existem muito mais coisas além da moral que nos dizem o que é bom ou mau para nós.
            (3) A boa vida prevalece sobre a vida moral: É a posição de Nietzsche, também do personagem Trasímaco e atualmente de Philippa Foot. Pode admitir que a moral seja um bem humano, mas ela não pode tomar uma forma dominante. Nesta visão, seria um erro levar uma vida moral se ela não desse ao individuo uma vida boa. Claro que quem opta por essa alternativa, muitas vezes acaba por dizer que a moral em si mesma é um mal para quem a possui.
            (4) A Vida moral prevalece sobre a boa vida: é a posição natural do utilitarismo e das teorias deontológicas não-religiosas, como as teorias do direito. Aqui a moral não entra necessariamente em confronto com a vida boa, mas quando isso acontece, ela nos dará razões suficientes para sacrificar nosso bem pessoal individual. O que se exige moralmente de cada individuo é definido em termos do que é ótimo para a totalidade dos indivíduos. Quem segue esta alternativa afirma que o individuo deve sacrificar sua renda, suas relações, todo seu bem estar se isso for mais útil para a sociedade. Se o individuo tiver sorte, seu bem estar será o bem estar geral e ele levará um boa vida, caso contrário, a moral irá lhe exigir que renuncie uma boa vida.
            (5) Nem a boa vida nem a vida moral prevalecem sempre uma sobre a outra:  Como em (3) e (4), se presume que não se podem definir os dois tipos de vida em termos um do outro e que cada um deles encontra apoio em razões que podem variar quanto à força relativa. Teorias que apresentam a moral como sistema de práticas, regras ou convenções sociais também satisfazem as condições desta alternativa.
            Para Nagel o que é correto é parte do viver bem, mas não é a totalidade, nem a parte dominante. O ponto de vista das demandas individuais é apenas um ponto dentre tantos outros. Ele crê que mesmo que em determinado momento o agir moral possa prejudicar o viver bem, é provável que isso gere diversos outros fatores que em outro momento se agregarão ao viver bem. (Nagel, p.330)
            Willams estaria se afastando da verdade ao afirmar que a moral individual afasta o individuo de seus projetos pessoais. Provável mente ele afirma isso pois acha que individuo se coloca em papel de espectador ao aceitar uma moral impessoal. Fato que Nagel não concorda. Para o filosofo essa alienação deve ser evitada mediante harmonização dos projetos individuais com os impessoais. Isso seria possível porque as morais impessoais não se dão “de fora pra dentro”, pelo contrário, elas refletem nossa própria disposição de vermos a nós mesmos. Claro que nossa vida não está resumida a esta visão impessoal.
            Devido a isso, não se pode pensar que sempre que houver o confronto entre os tipos de vida deva-se sempre dar razões ao viver moral como em (4). Também não se devem dar razões sempre ao viver bem, como em (3). Na maior partes das vezes se deve optar por pela moral, mas a natureza de cada caso deve ser estudada racionalmente. Isso coloca Nagel entes as alternativas (4) e (5).
            Ele está buscando saber se as condições para (5) podem ser satisfeitas por morais impessoais com pretensões universais como o utilitarismo. Por suas convicções morais, ele não consegue concordar com (5). Está fortemente inclinado a pensar que o viver moral sempre tem suas razões para se colocar acima da vida boa individual. Por fim o filosofo acredita que o caminho que a ética deve buscar para essa conciliação não deve ser fácil e nem se pode esperar por facilidade. Assim sendo este problema não pode, nem deve ser superado com o simples recurso de definir o moral como racional ou o racional como moral.

4. O MORAL, O RACIONAL E O SUPERROGATÓRIO

            “Racional” pode significam racionalmente requerido (sentido forte) ou racionalmente aceitável (sentido fraco).
            (4) só é verdadeira se alguém diz que a moral precisa ser racional, o que é diferente para Nagel em relação a dizer que ser imoral é sempre irracional, ou ainda num sentido ainda mais fraco “ser moral nunca é irracional”.
            Destas várias visões há três conclusões possíveis:
            (a) As razões contrárias são decisivas a ponto de tornar o ato irracional;
            (b) As razões favoráveis são decisivas a ponto de requerer racionalmente o ato;
            (c) Há suficientes números de razões contrárias e favoráveis, para que, ainda que o ato não seja racionalmente requerido, seja racionalmente aceitável .
            Para Nagel a moral deve ser racional pelo menos no sentido fraco, mas ele busca uma moral racional no sentido forte.
            Uma ou mais destas conclusões pode encontrar apoio numa teoria ética, sem circularidade evidente e o resultado será a modificação das demandas impessoais. Modificações estas que vão reduzir a dimensão do conflito entre vida moral e vida boa, mas não eliminá-lo. Também diminuirá o hiato entre o moralmente requerido e o racionalmente requerido.
            O fato é que os requisitos morais válidos precisam levar em conta as capacidades motivacionais dos indivíduos aos quais se aplicam.
            Para Nagel a moral impessoal se desenvolve em etapas, originando-se do desejo de “enquadrar” nossas ações e justificações num ponto de vista externo ao nosso. (Nagel p.334 e 335) Este ponto de vista não deve ser de outro indivíduo em particular, deve ser um ponto de vista universal.
            Pode parecer estranho, mas nesta perspectiva devo levar em consideração e tratar da mesma forma um estranho a um familiar. Isto basicamente desconsideram a esfera afetiva onde também há relações de moralidade, mas o fato é que para o filósofo, o indivíduo deve reconhecer que objetivamente não sou mais importante do que ninguém. Está é a parte central de seu argumento e para mim, é justamente onde deve começar a encontrar problemas.
            Seguindo seu pensamento este conflito moral avança para o nível da ética, e deve ser resolvido a partir do ponto de vista que consiga dar uma visão externa para cada caso.
            Nagel não exclui princípios que exijam extremo sacrifícios pessoais, desde de que estes possam trazerem extremos benefícios para a vida dos outros. Refletindo desta maneira, teríamos mudanças nas demandas das morais impessoais, seria uma moral impessoal baseada na tolerância e no reconhecimento de limites. Vejam que isso não exclui o confronto entre moral impessoal e as demandas particulares.
            Nem sempre meus interesses particulares irão fazer com que me rebele frente à moral impessoal, muitas vezes meus interesses estarão apoiados no ponto de vista objetivo. Para pensarmos no ponto de vista objetivo, devemos pensar em como as pessoas deveriam viver, mais do que isso devemos levar em conta suas complexidades motivacionais. “O resultado será provavelmente que em algum limiar difícil de definir, concluiremos que não é razoável esperar que as pessoas em geral sacrifiquem a si mesmas e sacrifiquem aqueles com quem têm estreitos laços pessoais em favor do bem geral.” (Nagel, p.336) Esta seria uma condição de Razoabilidade.
            Aparentemente com isso estaríamos admitindo nosso egoísmo e maldade frente aos problemas dos outros, Nagel não concorda com isso, afinal somos seres complexos, o impessoal é apenas um aspecto de nosso natureza, não podemos ser julgados como piores apenas por as vezes agirmos em benefício próprio.
            Mais uma vez, uma teoria moral deve sempre levar em conta os seres aos quais se destina, suas vocações, vontades, etc. Uma moral deve refletir o que é razoável pedir-lhes e o que impessoavelmente se espera. É necessário um acordo entre o eu superior e o eu inferior para chegar a uma moral aceitável.(Nagel, p.337) Com isso se reduz o hiato e essa sanção impessoal se pode alcançar certo equilíbrio entre as razões pessoais e impessoais.
            Para Wolf “uma perspectiva que não esteja atrelada a um compromisso com algum sistema de valores bem ordenados”, a moral não pode arbitrar sua própria causa. Nagel descorda, para ele o ponto de vista moral deve tentar reconhecer e explicar seus próprios limites.
            O argumento de Nagel aparentemente consegue evitar a circularidade entre moral e racional, pois ajusta os requisitos morais a termos razoavelmente adequados para os seres racionais aos quais se destinam. Ao reduzir as exigências morais, seu argumento também apresenta tolerância e realismo acerca da natureza humana. Agir de acordo com uma moral desumanamente exigente é agir de forma irracional.
            Claro que um “homem santo” que faz grandes sacrifícios em prol das vontades dos outros não deve ser considerado irracional, pelo contrário, suas atitudes são moralmente louváveis. A virtude superrogatória se manifesta em atos de excepcional sacrifícios em benefício dos outros. Dentro do argumento de Nagel, a virtude superrogatória consiste na adesão às demandas da moral impessoal antes de sua modificação para ajustar-se às limitações normais da natureza humana. (Nagel, p.339) Por sua dificuldade de se tornar motivacionalmente verdadeira na vida de cada indivíduo a moral superrogatória merece seu reconhecimento, mas não pode ser parâmetro para o julgamento daqueles que não a atingem.


 5. POLÍTICA E CONVERSÃO


O filósofo duvida que seja passível encontrarmos a conciliação necessária entre os dois tipos de vida dentro dos limites de uma teoria moral. Este é um problema que devemos enfrentar no dia-a-dia. Para isso nos restariam duas possibilidades:
I- Conversão pessoal.
II- Alternativa política.
A conversão pessoal exigiria um grande sacrifício pessoal do individuo. Este, a partir de sua própria razão, teria que encontrar forças para dar um salto de autotranscendência partindo de seus padrões de boa vida e aterrissando nos padrões de boa vida de uma moral impessoal, harmonizando assim, seu conflito interno entre as demandas morais.
A alternativa política trata-se de uma aplicação política mundial onde o fim último deve ser sempre ordenar o mundo de maneira que todos possam viver uma boa vida sem cometer injustiças para com os outros, onde se possa ficar rico sem que se tenha que estar deixando tantos outros pobres.
Se fosse possível fazer uma escolha, Nagel escolheria a alternativa política (Nagel, p. 344). Isso porque requer uma unificação menos heróica, porém quando olhamos para atual situação ética da política mundial, fica claro que a “revolução moral de Nagel” não passa de um sonho distante. Sonho de um mundo feitos de homens iguais a nós, porém livre para devotar considerável atenção e energia a suas próprias vidas e aos valores que não pudessem ser reconhecidos impessoalmente.

CONCLUSÃO


Deve nos estar claro que os requisitos de uma moral impessoal às vezes podem entrar em conflito com nossas demandas pessoais. Isto não nos leva, de maneira alguma, à rejeição da possibilidade de aceitarmos racionalmente uma moral impessoal. O que o filósofo tenta mostrar é que as exigências de uma moral impessoal devem ser ajustadas para estarem de acordo com a racionalidade e as vocações pessoais dos indivíduos que se submeteram a ela.
O problema do confronto entre o viver bem e o viver moral vem sendo negligenciados há séculos pelos filósofos, Nagel se diz profunda mente insatisfeito com isso (Nagel, p.314) e julga que esta deve ser uma questão central para a ética. Ele não acredita que uma vida totalmente imoral possa ser melhor do que uma vida moral, ou que uma vida moral possa ser completamente ruim, porém a racionalidade é o que deve estar pro traz de toda teoria moral, de maneira que mais do que dizer o que é certo fazer, possa dar razões suficientes para dar espaços aos indivíduos ao qual se destina, possibilitando-lhes viver uma vida que seja boa.
Nagel não rejeita o utilitarismo, mas também não se adapta a ele, primeiramente porque considera uma teoria moral demasiadamente exigente, exatamente por isso é incapaz de resolver seu problema central.
Por fim o filósofo chega a falar na necessidade de uma grande mobilização política que seja capaz de reduzir a distância entre os modos de vida citados, porém não dá nenhuma pista de como isso possa ser feito levando em conta nossa realidade.
Julgo que as ideias aqui argumentadas por Nagel são mais do que interessantes e devem ser levadas em conta dentro de qualquer teoria moral ou ética. O único problema que penso ficaria no nível de como aplicar e de suas conseqüências práticas oriundas de sua aceitação teórica. Não basta apenas apontar para uma alternativa política sonhadora de um mundo melhor. Ele chega a falar mais de uma vez nesse capítulo que “eu não sou mais importante que ninguém” tentando fortalecer os princípios objetivos na moral. Porém julgo que ao aceitarmos o pressuposto “eu não sou mais importante que ninguém” estou aceitando também que “ninguém e mais importante do que eu” o que acabaria por empatar o novamente o jogo ente viver bem e viver moral.
crianças se abraçando abraço amizade

REFERÊNCIAS




NAGEL, Thomas. Visão a partir de lugar nenhum. São Paulo: Martins Fontes, 2004 405p. 
Comentários
1 Comentários

Um comentário:

  1. Concordo com a visão de Nagel."mesmo que a demanda moral possa levar o indivíduo a uma morte prematura,ainda sim seria melhor uma vida curta que uma vida longa" Até aí ele explicou concordando com os moralistas. Que deixa de estarem certos.Vivendo moralmente viveremos num boa conduta sem remorsos, sem duvidas e com mais respeito aos olhos dos outros, inspirando conforto para si e para os outros. E assim terá com razão uma vida boa. Isso é de fato viver bem e correto. Pois os que vivem na imoralidade sempre vive preocupado e desconfiado e isso lhe tira da boa vida, no qual ele próprio pensa que está. Não existe um conflito entre uma coisa ou outra.Quem vive moralmente não se preocupa com a imoral pois ele se sente bem noque fás. Quando o imoral sabe que está fazendo errado e tem consciência disso. só. obrigado . Também não sei se estou tão certa assim. espero respostas.

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